Psicologia

OS OUTROS E EU: UMA CONVIVÊNCIA VIÁVEL

 

Aprendemos cedo a perceber o outro, a afetar e ser afetados pelos que nos circundam. É tão fundamental saber interagir como saber comer, brincar, estudar ou trabalhar. Não dá para subestimar as relações pessoais, porque senão decaímos como humanidade.

Precisamos investir na educação emocional das crianças e ensiná-las a ler os estados de ânimo das pessoas, assim como promover a sensibilidade e estimular a compaixão, favorecendo expressões adequadas de afeto. Por quê? Porque sempre seremos seres co-implicados. E se o somos, nossa maior especialização deveria ser a arte de nos relacionar, porque nada importa tanto quanto o outro importa.

Se for preciso crescer, maturidade é descobrir o bem que há no outro, o outro que é o meu igual, não o meu adversário, não uma ameaça, não um anônimo.

O homem é ele e sua circunstância (Ortega y Gasset). Ora, fazemos as circunstâncias, promovemos as realidades e apoiar-se em pessoas é melhor que apoiar-se em dinheiro e em coisas.  A riqueza das nações nunca esteve em seu patrimônio, mas nos seus cidadãos, sendo que aquilo que não serve para ajudar os outros, não serve, tão pouco precisa.

Mais terrível que a fome é o desamor. Para alguém vazio, dê-lhe algo para amar, afinal, todos os atos da vida humana fazem referência ao amor, seja porque o afirmam ou porque o negam. Se o amor é o ato humano por excelência, é ele que redime a possível feiúra da vida.

Que tão fácil tem se tornado desqualificar o outro! O outro tem sido o nosso inferno (à moda de Sartre), quando deveríamos suavizar seus sofrimentos, nos ocupando de suas histórias e nos antecipando às suas necessidades.

Comunicar-se de verdade, não se maquiar, recusar-se ao indiferentismo, humanizar os homens, restituindo-os a si mesmos.

O nosso alheamento das pessoas nos leva ao vazio e à insuficiência.

Nunca foi tão premente redirecionar a nau, reeducar os afetos e descobrir a distância que separa as nossas ações do ideal humano e civilizado que uma sociedade sadia requer, dando bases seguras ao homem e às culturas.

Não mais se deixar atrair pelo abismo, não mais se equivocar com os egoísmos maquiados. Pelo contrário: corresponder às exigências do amor, fazer triunfar a moral, continuar até o sacrifício, salvar o homem do caos, recusar-se a desesperar!

No lugar deste fatídico déficit na capacidade de amar, a aventura gozosa de recomeçar: um novo projeto para o velho homem, baseado em um amor recíproco robusto, porque está em jogo nada menos que a felicidade humana. E para reconquistá-la, agregar pessoas, unir vontades, produzir transformações!

Lélia Cristina de Melo – Psicóloga Clínica e Orientadora Familiar

CRP: 08/02909

Anúncios
Família, Psicologia

A EPIDEMIA DO SÉCULO XXI: O VÍCIO TECNOLÓGICO

 

Que os pais conscientes não permitam que seus filhos cheguem a uma situação-limite pela dependência da Internet.

A adição patológica a esta ferramenta já está sendo incluída como transtorno mental por alguns estudiosos. Ela sempre supõe problemas associados: depressão, ansiedade, dificuldades sociais, solidão, neurose, insônia, transtornos alimentares, etc.

Nos videojogos, o indivíduo se impõe e obtém mais êxito do que na realidade: ele compete e ganha, ele é fera, nada o ameaça e ele comanda. Para alguns, é a fuga licenciada da realidade e causa de inadaptação. Este transtorno desfavorece a comunicação e a intimidade familiar, representando também dificuldades interpessoais e sentimentos de menos-valia, funcionando ainda como compensação.

Um parâmetro razoável do tempo na Internet para adolescentes é de no máximo 14 horas semanais, distribuídas segundo a necessidade de cada dia, desde que não interfira nos estudos, esportes (ou outra atividade similar), lazer e convivência familiar.

A saída, para aqueles que não controlam a compulsão, é a psicoeducação. Caso os pais não consigam administrar o problema sozinhos, aliar-se a um psicoterapeuta de confiança ajuda muito, sendo que ambos contribuirão como alicerce orientador.

A psicoterapia pode atuar através de:

– Identificação das distorções;

– Reflexão dos benefícios e do ônus;

– Identificação de gatilhos;

– Identificação de estados emocionais subjacentes;

– Treino no controle dos impulsos;

– Treino da comunicação e habilidades sociais;

– Tentativas de enfrentamento da realidade;

– Gestão produtiva do tempo;

– Inserção em atividades alternativas.

Tende a haver muito êxito as ações combinadas entre os pais e o terapeuta, contando ainda com a adesão (convicta ou não) do adolescente. Nos casos mais graves (co-morbidades), associa-se estabilizante de humor (com orientação médica).

É relevante considerar que as pessoas não se tornam viciadas, elas escolhem ser dependentes (uso pessoal da liberdade), portanto, qualquer indivíduo pode mudar seus pensamentos, sentimentos e condutas, pois não há determinismo no gênero humano. 

Lélia Cristina de Melo

Psicóloga Clínica e orientadora familiar – CRP 08/02909

 

 

 

Um pouco mais sobre esse assunto no texto: “Realidade familiar na era digital”.

Família, Maternidade

PÉ DE CRIANÇA

Pede criança na sua vida. Não tenha medo.

 

Foto Camila CarpentieriPé de criança, Crianceira ou Criançus doméstica.

Árvore frutífera da família da felicidade.

Cultivo de verão a verão.

Necessita de muito cuidado, adubagem correta, podas constantes.

Seu cuidado pode ser mais complicado e trabalhoso em algumas épocas, no entanto, a dedicação constante resulta em árvore frondosa, flores exuberantes e frutos deliciosos.

Aqueles que se comprometem a cultivar de perto, estudar com afinco o crescimento e necessidades da espécime são brindados com a felicidade da certeza de missão cumprida e a alegria de poder deleitar-se com o que há de melhor e mais profundo nessa vida: o amor vivido e sorvido em profundidade.

Crianceira: não tenha medo de cultivá-la.

 

Cibele Scandelari

 

Foto: Camila Carpentieri

Família, Maternidade

Mergulho da vida

Passa o cilindro de oxigênio. Snorkel é para os fracos!

Cresce no mundo um jeito estranho de encarar a vida. Algumas coisas que deveriam ser óbvias vão se perdendo no mar das facilidades, das conveniências. Por exemplo, o fato de que para escolher algo eu renuncio a outras coisas é matéria desconhecida para uma  parcela grande das pessoas, principalmente os mais jovens. Outros aspectos podem ser citados, mas de uns 30, 40 anos pra cá alguns medos vêm tomando o espaço da vida de muita gente. Medo de coisa que simplesmente faz parte da vida! Amadurecer pressupõe aquelas escolhas citadas acima. Amadurecer pressupõe compreender que não temos o controle total da nossa vida. Não existe meios de controlarmos tudo o que irá acontecer conosco. O amadurecimento, penso eu, deve nos levar a  compreender que viver responsavelmente inclui essa consciência de que não estamos no controle de tudo, somada ao trabalho e à compreensão de que a vida é curta. Não tem como voltar atrás. Nessa linha de raciocínio, perguntas importantes deveriam ser feitas em nosso interior. Sim, se a vida é curta eu tenho que encontrar as melhores coisas, as mais valiosas que posso desfrutar, trabalhar por elas, conquistá-las. Quais são essas coisas? Vou deixar de viver essas maravilhas por medo, preguiça ou comodidade? Sei lá… me parece um baita desperdício viver dessa forma rasa.

Venho tentando ganhar, aos poucos, as profundidades que a vida possui. Quem me dera ser mergulhadora mais experiente. No entanto, infelizmente, ainda tenho alguns medos. Porém, já compreendi que ficar na superficialidade da vida, brincar apenas no raso não pode ser minha meta. Fui feita para grandes mergulhos, que vão custar esforço, treino, dedicação, mas que me trarão, a cada investida, amostras da real beleza da vida.

O que seria brincar no raso? O que seria viver na superfície? Olha, cada um sabe o que vai no seu interior, mas, pra mim a superfície é aquela que foi moldada por uma tirania do egoísmo que não deixa a pessoa se doar, da sociedade que moldou na cabeça de muita gente que pra permitir a entrada de uma criança na vida do casal só quando a grana do plano de saúde do segundo filho (será? Que preguiça!)  estiver separada, o carro e a casa paga e der pra ter dado uns rolês pelo menos por uns países aí.

Pra mim, brincar no raso é não tomar o touro da vida pelo chifre e aceitar de verdade que prometeu amar AQUELA  pessoa. Que está alí para o que der e vier e que faz isso como um movimento de sua mais profunda vontade. Não depende do sentimento, mas sim do querer.

Brincar no raso é dizer, de vez em quando “mas eu mereço ser feliz” e cogitar a possibilidade de esquecer de todas as promessas feitas ao longo da vida. Seriam nossas promessas coisas tão sem valor? Brincadeira de criança?

Ao meu ver esse é um jeito estranho de encarar a vida…como eu disse logo no começo. É imaturo. Falta querer parar para refletir sobre que sentido se dá para cada segundo vivido. Para que, afinal, fazemos o que fazemos a cada dia? Para onde vai tudo isso? Se acreditamos em eternidade, pensamos nela? Fazemos alguma coisa em nossa vida com a consciência de eternidade? Se acreditamos, quais as consequências de nunca pensar nela e nem colocá-la no plano diário de nossas ações? Me parece tão perigoso e incoerente viver assim… Não estou filosofando apenas. Estou pensando em ações muito concretas que podem definir arrependimentos muito profundos e impossíveis de serem revertidos.

Vou vivendo a vida querendo muito mergulhos mais profundos. Tenho muito ainda o que aprender, mas desde já quero ir mostrando às minhas filhas a beleza de se aventurar, de maneira corajosa em águas profundas, que valham a pena e que façam, a mim e a elas, pessoas coerentes.

E você? Mergulha?

Cibele Scandelari

Áreas do Conhecimento, Homeschooling, Matemática

Quem tem medo de matemática?

Uma das coisas que mais me davam medo na escola era a aula de matemática. Chééssussss … quanto calafrio passei antes, durante e depois das aulas. E olha que eu tive professores interessados… Já ouvi, li e recebi muitas mensagens de mães que relatam muita ansiedade e medo em sua prática de educação domiciliar, ou que nem começam o homeschooling por causa de seu medo com alguma disciplina. E a fofura da matemática está brilhando como uma das contempladas com o Oscar das disciplinas mais incompreendidas do cenário educacional brasileiro.

Cresci escutando que se numa turma, mais de 50% dos alunos “vão mal” na prova, é necessário que o professor faça uma reavaliação da forma como o conteúdo está sendo ministrado. Faz sentido. O que dizer, então, de um país que ocupa a 65ª posição entre as 70 nações avaliadas no PISA nessa disciplina em 2015 ? Essa foi a colocação brasileira. A avaliação mais geral do país no projeto The Learning Curve, o Brasil aparece em penúltima posição, entre 40 países pesquisados.

Eu sentia minha mão suar nas aulas de matemática. Passava mal literalmente e me senti incapaz de compreender a lógica de tudo aquilo por muitos anos. Desenvolvi medo da matéria. Hoje, após verificar que o país é massivamente jogado no limbo matemático e não conseguimos caminhar nem perto de outros países, consigo compreender que, sim, eu tinha dificuldades…mas a culpa não era só minha.

Algo está sendo feito de muito errado, há alguns anos, dentro dessa disciplina em nosso país.  Não é possível que os países bem avaliados expliquem, apliquem a matemática da mesma forma e que somente nós não consigamos captar a mensagem. O que é que países como Finlândia, Singapura, Grã-Bretanha fazem de diferente?

Quando cheguei  na idade de escolher minha profissão, sonhava com arquitetura. Não cheguei a tentar o vestibular para a área por puro medo de enfrentar os números. Nunca havia contado à minha família que desisti de algo que me inspirava, por que não me sentia capaz de enfrentar alguns pares de cálculos e problemas matemáticos. Será justo que deixemos isso acontecer com nossos filhos? Que eles nem pensem em trilhar um caminho por medo, fruto de um encaminhamento metodológico fraco, errôneo?

O que devemos fazer, como pais, para reverter esse processo? Como podemos realmente ensinar, ou ajudar nossos filhos a compreender uma disciplina tão complexamente bela como a matemática? O que precisamos fazer para que nossos filhos tenham, desde os primeiros anos, o contato com o desenvolvimento de uma linha de raciocínio que os ajude, que dê base a um pensamento lógico organizado, bem sustentado, articulado e com sólida base? Se você pudesse reaprender a lógica com seus filhos se sentiria mais confiante para ensiná-los em casa?

Vamos encontrar um caminho? Quem quer?

 

Cibele Scandelari