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Letra bastão ou cursiva?

 

Gostaria de colocar minha visão acerca da questão da alfabetização com letra cursiva e bastão.

Não é difícil encontrar quem inicie o processo de alfabetização pela letra bastão ou caixa alta. Muitas mães já me perguntaram se é essa a letra que devem começar a apresentar aos seus filhos e algumas se surpreendem com minhas respostas.

Antigamente todos aqueles que eram alfabetizados o eram através da escrita cursiva. A mudança se deu não faz muito tempo e, ouso dizer, embora não tenha pesquisado muito à respeito, que essa mudança veio no tempo da reforma da educação, realizada, alí por volta da década de 1990. Tempo de revolução tecnológica em um país que lutava (ainda luta) para dar conta de inúmeras questões econômicas, sociais e educacionais. Nesse panorama e com a realidade que a tecnologia trouxe e continua trazendo, muitos acreditam que a letra de mão, a letra cursiva, deva cair em desuso, que não existe mais necessidade alguma de ser realmente ensinada nas escolas. Inclusive alguns países estabeleceram a diretriz de realmente abolí-la de suas escolas, como é possível verificar em algumas reportagens como esta: https://veja.abril.com.br/educacao/na-finlandia-escolas-trocam-letra-de-mao-por-digitacao/  . Segundo a notícia, os alunos que iniciarem no curso primário não serão mais obrigados a aprender caligrafia. As crianças aprenderão, no lugar disso, a digitação em computadores e tablets. Neste caso a questão vai além da letra cursiva. Nem as letras bastão as crianças seriam ensinadas a traçar.

Minha humilde opinião sobre o assunto é que seguir diretrizes como essas, pode nos levar a caminhos meio tortuosos. Não considero que a escrita seja apenas um meio de comunicação. A vejo como uma forma de arte, como uma maneira de exercitar a mente, o cérebro,  criar novas conexões neurológicas, imprimir no papel, mediante a coordenação visomotora aquilo que se passa na alma. Somos seres humanos e não máquinas e a escrita “ao modo antigo” me parece estar mais intimamente relacionada com isso. Mesmo que a digitação também possa transmitir, de alguma forma, o que vai em nosso coração.

Bom…mas o que então acho sobre a letra cursiva e a bastão? Acredito, após ouvir muitas pessoas e pesquisar algumas fontes, que a escrita cursiva trabalha muito mais partes do cérebro, possibilitando muito mais conexões neurológicas. Essa rede de conexões agilizam o pensamento e dão suporte para novas descobertas. Uma rede neuronal com mais conexões é mais rápida, eficiente, saudável.

Como pais presentes, queremos, com certeza, que nossos filhos sejam expostos à tudo aquilo que venha a acrescentar em seu desenvolvimento. Frente a isso, realmente, não podemos afirmar que toda criança que aprender com a letra bastão terá, certamente, dificuldade de passar para a cursiva. No entanto, essa possibilidade é maior. Muitos dizem que alfabetizam com a bastão pois as letras são mais fáceis de serem escritas. Isso se dá porque a maturidade da coordenação motora, neste quesito, é um pouco mais lenta que a maturidade para a decodificação dos grafemas (os desenhos das letras) em fonemas (o som de cada letra) e a letra bastão quase não possui curvas, mais difíceis de serem traçadas por mãozinhas imaturas.

O trabalho com caligrafia era feito com crianças um pouco maiores, em um material específico para a maturidade motora das mesmas e com uma frequência que crianças maiores poderiam suportar (e mesmo assim  muitos reclamavam). Quando a mudança aconteceu a necessidade da caligrafia também e muitas escolas abandonaram a letra cursiva, uma vez que o “objetivo social” da escrita seria a transmissão do pensamento, da ideia. Ora, se a ideia foi transmitida em letra bastão, não havia necessidade alguma de que as crianças fizessem aqueles treinos de caligrafia. Passaram a fazer uma conexão, entre outras coisas, que a escrita cursiva com crianças um pouco menores seria  cruel. Muitas professoras chegam a dizer que a letra cursiva segregava alguns alunos. De lá para cá, a maioria passou a ser alfabetizada com letra bastão e a maioria dos livros apresentam essa letra.

No entanto, pude ouvir relatos de algumas mães que afirmam que a letra bastão pode até ser mais fácil de ser traçada, no entanto, esse mesmo tipo de letra, essa mesma fonte pode confundir as crianças. Podem confundir um p com um q, um d com um b. Isso é muito fácil de ocorrer, na realidade. Para isso, o trabalho físico de lateralidade (entre outros) deve ser realizado. Existe um trabalho anterior à alfabetização que pode ajudar nessa questão.

Porém, como eu disse, escrever com a mão e não com o auxílio de computadores ou outros dispositivos é essencial para o desenvolvimento de conexões neurológicas. E, mais que escrever com a mão, utilizar-se da letra cursiva, promove ainda mais conexões, pois ” A neurociência sustenta que a escrita cursiva, por exigir maior esforço de integração entre áreas simbólicas e motoras do cérebro, é mais eficiente do que a letra de forma para ajudar a criança a adquirir fluência e escrever “em tempo real”. Ademais, a técnica estimula o cérebro, aumentando o número de sinapses e, consequentemente, sua capacidade.”, como afirma Hirmínia Dorigan de Matos Diniz, promotora de justiça em comunicado sobre educação ao Ministério Público.

Bom…sempre apresentei as letras cursivas primeiro e, quase que paralelamente, inúmeras outras fontes são apresentadas. Ao escrever solicito a cursiva e, em algum tempo, a criança passa a reconhecer todas e, como já tem treino suficiente, consegue traçá-las também sem nenhum problema.

E você? O que acha? Vamos conversar?

 

Cibele Scandelari

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Família, FAQ, Linguagem, Maternidade

Por que ler em voz alta para a criança?

Que é importante sabemos, mas…quais são os motivos?

Neste breve artigo Clara Finotti Moro nos aponta alguns muito importantes.

Volta e meia ouvimos falar na leitura em voz alta. Especialistas recomendam que este hábito seja inserido na rotina da criança, mesmo que ela seja bem pequena e que continue até que seja grande o suficiente para dispensar a presença do leitor adulto. Provavelmente a criança começará a ler desacompanhada quando se sentir segura e dispensará definitivamente o “leitor-tutor” ali pelos 9 ou 10 anos, quando já se achar grande demais para ouvir histórias contadas pelos adultos. 

Mas, por que afinal ler em voz alta com tanta constância? Em primeiro lugar, a leitura em voz alta aproxima o pequeno ouvinte do objeto livro e dos mundos contidos neles. A voz que conta a história é a primeira ponte para o mundo da escrita. Além disso, para uma criança pequena, a voz dos pais em situação narrativa tem efeito calmante, propicia sentimento de aconchego, fortalece o vínculo familiar. Não somente isso: com o ambiente criado entre pais e filhos durante o ato de ler em voz alta, a criança se acostuma a fazer perguntas e ouvir os pais, criando o hábito de dirigir-se a eles com confiança. A naturalidade em dirigir-se aos pais nos momentos de dúvida e entusiasmo será muito útil no futuro.

Além disso, ao ouvir a leitura em voz alta, a criança exercita sua capacidade de concentração, atenção e raciocínio. Quanto mais cedo este “exercício” é feito, mais fáceis e naturais vão se tornando essas capacidades para a criança. O pequeno ouvinte percebe que deve ficar em silêncio para não perder nada, precisa exercitar a imaginação para compreender a narrativa, nota que um fato puxa outro; e que aquela narrativa, ainda que seja curta ou dividida em capítulos, tem uma sequência lógica.

Na leitura em voz alta, a criança apreende também um vocabulário mais rico e variado, dependendo, é claro, da escolha de leituras dos seus pais. Da mesma forma que a criança bem pequena aprende a palavra “céu”, e essa palavra será sempre muito natural em seu vocabulário, aprenderá também palavras como “caravela” ou “incólume”; e essas palavras não serão estranhas para ela, auxiliando em novas leituras.

Com um vocabulário mais amplo e domínio de narrativa, a criança vai desenvolvendo também suas capacidades comunicativas. Argumentar e descrever serão domínios naturais para uma criança que tem o hábito de ouvir variadas leituras. Outro grande benefício: estaremos formando alguém que sabe ouvir, uma qualidade que vem sendo bastante valorizada no mundo atual, onde todos falam e ninguém escuta.

Vistos alguns dos motivos pelos quais devemos ler em voz alta para nossas crianças, fica uma nova pergunta: o quê, afinal de contas, ler para elas?

Fica para o próximo artigo. 🙂

Um abraço

Clara F Moro