0-4 Anos, Áreas do Conhecimento, Homeschooling, Planejamentos

Contagem e correspondência 1 a 1 para crianças pequenas

Duas noções importantes a serem desenvolvidas logo na primeira infância é a correspondência 1 a 1 e contagem na ordem numérica. Esse tipo de correspondência consiste em estabelecer uma relação, atribuir um elemento único de um conjunto a outro elemento, também único, de outro conjunto. Ao contar os dedos da mão, o que as crianças fazem é estabelecer um “nome” único para cada dedo. A aprendizagem dessa noção de correspondência é necessária para que a criança compreenda o conceito de número e, mais tarde compreenda tudo o que envolve as operações. A contagem na ordem desenvolve a memória e começa a estruturar a lógica matemática. No começo são palavras postas numa determinada ordem, com o passar do tempo cada palavra passa a ter um valor diferenciado dependendo da situação.

Pode parecer lógico, mas é importante destacar que muitas vezes podemos passar por noções que para nós adultos são incrivelmente lógicas, mas que para a criança não são. Realmente não deixam de ser básicas, fáceis, óbvias, mas só possuem essas características para nós devido a toda uma estrutura de vivências, relações, maturidade cerebral, etc que detemos. Precisamos permitir que as crianças tenham as oportunidades de vivenciar estas relações e melhor se puderem contar com quem amam para isso.

Dito isto, gostaria de compartilhar umas atividades muito simples, mas de extrema importância para o desenvolvimento do pensamento lógico-matemático em crianças pequenas. A primeira atividade seria o desenvolvimento do hábito de cantar canções que apresentem a seqüência numérica. Músicas como “1, 2, 3 indiozinhos, 4, 5, 6 indiozinhos, 7, 8, 9 indiozinhos, 10 num pequeno bote..”, ou então, “1,2 feijão com arroz! 3, 4 feijão no prato…”, colocam a contagem numérica em situações que permitem que a criança aproveite a melodia e aos poucos memorize a sequência.  Contar passos até chegar em algum lugar, contar os degraus de uma escada são ótimas oportunidades para trabalhar a sequência numérica.

Paralelamente a isso, é possível fazer uma brincadeira que pode ser montada de diferentes tamanhos, em diferentes lugares. O conceito é muito simples e a brincadeira pode durar poucos minutos. Entretanto, o importante não é o tempo destinado e sim que a criança tenha a oportunidade de fazer suas tentativas após a explicação, brincar com os pais e, mais tarde tentar fazer sozinha. Sem pressão, mas como algo natural (que na realidade é). A brincadeira consiste em desenhar uma tabela de quantas linhas e colunas os pais acharem plausível para a criança. Então, podem trazer vários ursos de pelúcia, ou carrinhos, ou outros objetos e sugerir que cada quadrado é uma casinha que precisa de apenas 1 morador, ou garagem que cabe apenas 1 carro. Após, deixar a criança realizar a montagem da maneira como ela acha que deve. Então, depois que ela fez sua montagem averiguar se cada casinha realmente tinha apenas 1 morador, 1 carrinho, se nenhuma ficou apertada.  É interessante que a atividade seja feita em diferentes lugares e com diferentes materiais, apesar do objetivo ser o mesmo, o contexto para a criança muda, reforçando a ideia por detrás. Após a criança brincar com peças grandes, é possível criar tabelas no papel e pedir que pequenas peças sejam organizadas da mesma maneira. Neste simples jogo a criança passa a desenvolver a noção da correspondência 1 a 1.

Após um tempo brincando assim, é possível tornar a matemática mais viva e pedir que a criança ajude a montar a mesa e pense, por exemplo, quantos pratos é necessário naquele dia? Por que? Depois, quantos copos? Por que?

Outras situações do dia-a-dia ajudam na formação do conceito de correspondência 1 a 1: 1 calçado para cada pé, uma meia para cada pé, uma luva para cada mão, uma toalha para cada pessoa, etc.

Após, ou durante as ricas atividades práticas, é possível que registros sejam feitos onde a criança liga, por exemplo 1 abelha para 1 flor. Aqui, mais um elemento é trabalhado: coordenação motora fina e talvez seja necessário que atividades amplas sejam desenvolvidas, por exemplo que a criança caminhe por sobre uma corda que leva até seu objetivo, depois que realize o traçado em grandes dimensões e vá diminuindo o tamanho desse traçado aos poucos, conforme sua coordenação vai amadurecendo.

Esse tipo de atividade não precisa ser forçada, não devem ser longas e podem ser inseridas como brincadeiras ao longo do dia e logo a criança pode começar a solicitar fazer a sua “atibidadi”, como minha furacãozinho gosta de pedir.

Boa sorte com os seus ciclones!

 

Cibele

FAQ, Homeschooling, Planejamentos

Como lidar com a frustração de não conseguir fazer todo o planejado?

Ao longo da vida é normal que façamos muitos planos. Pelo menos é assim que vivo e é assim que vejo as outras pessoas.  É natural do ser humano planejar, sonhar com os dias que virão, pensar no seu futuro e tentar prever um caminho,uns passos que o levem aonde deseja.  Para alguns isso é feito de forma bem consciente, metódica e/ou balizada por alguns critérios morais, alguns objetivos profundos. Outras pessoas vivem esse plano de maneira mais solta e/ou com menos profundidade. No entanto todos nós, em algum nível, planejamos nossa vida.

No entanto, mesmo que tenhamos a paciência e empenho de planejar tudo com muitos detalhes e com muita organização, existe algo que nos escapa. Não temos controle de todos os fatores que influenciam nosso viver. Isso é intrínseco à vida. Simplesmente é o que é. Não controlamos o clima, a saúde,  o humor de quem nos rodeia, muitas vezes nem o nosso próprio humor…numa clara demonstração de imaturidade. E por falar em maturidade, faz parte do amadurecimento de cada um, aprender a enfrentar a realidade de que não é sempre que  conseguimos controlar com paz e naturalidade os percalços que nossa caminhada vai nos apresentando. Encarar, inclusive a própria sensação de frustração como algo normal, real e não alimentá-la faz parte do amadurecimento.

Quando pais homeschoolers (ou não) planejam é claro que querem, e é natural que seja assim,que aquele planejamento seja implementado na íntegra. É isso que seu coração almeja. Porém, como dito anteriormente, simplesmente não é possível dominarmos todas as variáveis que influenciam a realidade da qual fazemos parte. Um dia de estudos pode ir inteiro por água abaixo por causa de uma gripe. Ou então, o planejamento pode ficar pela metade, pois no meio do caminho muitas dúvidas e dificuldades surgiram e não seria adequado acelerar para cumprir com o plano. Algumas vezes o plano é furado porque o entregador de água veio justamente na hora do pico de concentração daquele filho, que apesar de aprender, não está demonstrando e quebra a linha de raciocínio do garoto. (Não achem que isso não acontece na escola…acontece sim…).

O primeiro passo para aprendera lidar com a sensação de frustração que essas situações nos fazem sentir é buscar amadurecer. É limitar a área de impacto dessa sensação provoca e o tempo que isso leva de maneira reacional. É compreender que isso FAZ PARTE DA VIDA. Em algumas etapas desse viver talvez existam mais fatores que contribuam para interromper o andamento do plano (filhos pequenos, doença, mudança, etc). Ainda sim, é necessário compreender que isso é normal. Reconhecer a realidade, fazer os ajustes que a situação permite para tentar evitar os tropeços e aceitar que o caminhar encontrará certos obstáculos, ajustando a caminhada a eles, faz parte do processo de amadurecimento.

Ao se ver imerso(a) na sensação de frustração é importante sentí-la, reconhecê-la racionalmente, nomeá-la (dar nome aos sentimentos é um exercício muito bom, tanto para crianças como para adultos) e não alimentá-la. Temos certa tendência a termos pena de nós mesmos…isso não nos leva a lugar algum.  Após administrada e vivida a sensação, devemos tocar o barco e ajustar as velas. O plano de estudo de seus filhos saiu dos conformes? Reveja os objetivos, reorganize as tarefas. Professoras de escola fazem isso. Não seria diferente com famílias homeschoolers.

É  importante que, ao planejar, quem planeja leve em consideração a existência dos contratempos. Não elabore um plano tão magnificamente elaborado que seja tão justo a ponto de não permitir nenhuma flexibilidade. Isso seria uma boa receita para se frustrar e não seria um plano bom…plano bom é aquele que procura contemplar a realidade e não a situação utópica da terra da imaginação das nossas viagens delirantes.

Sendo assim segue um resuminho: quando estiver SENTINDO a frustração, permita-se sentí-la sem aumentá-la e sem alongar a vivência da mesma. Analise os fatores que tiraram seu plano do eixo e tente usar essas informações para ajustá-lo.   Encare a situação que fez seu plano não dar certo  como forma de adquirir experiência. Esta só se adquire vivendo. É caindo que aprendemos a andar.

Se você está no início da caminhada da educação domiciliar tenha em mente: você viverá SIM situações que não sairão como o esperado tanto agora no começo como mais adiante. Talvez você aprenda alguns macetes de organização, mas mesmo assim nem tudo sai como queremos. A parte boa desses episódios de contrariedades é que vamos aprendendo a sermos mais resilientes e certos sentimentos passam a ocupar apenas o tempo e energia que deixarmos e nada mais, servindo de combustível para nossa caminhada.

 

Cibele Scandelari

Áreas do Conhecimento, FAQ, Homeschooling, Metodologias, Planejamentos

Como alfabetizo

Sabe aquela sensação deliciosa de ver os primeiros passos do seu bebê? Que você segura a respiração, quer gritar de alegria e se contém para não atrapalhar o momento? Então, quando um filho começa a ler na sua frente é mais ou menos isso que se sente. Bom, pelo menos comigo foi assim.

Ao fazer a escolha de educar em casa, nos deparamos com muitos métodos e não é diferente para a realidade da alfabetização. Existem muitos. Alguns são variações, outros são considerados quase como que opostos aos primeiros. Você vai encontrar o método fônico, silábico, global, das boquinhas, historiado…uma infinidade.

Particularmente gosto muito do fônico (e aplico com minhas filhas), mas não sou defensora a ponto de dizer que SÓ ELE ALFABETIZA. Não. Acho que é um método que abrange sim a maioria das crianças no processo de alfabetização, trabalha muito bem as possíveis dificuldades que elas possam vir a ter,mas não acho que ao adotá-lo, a família deva usá-lo de maneira pura e sem passar perto de alguma atividade, brincadeira, complementação do global, por exemplo. Fui professora em uma turma na qual eu usava diariamente a estimulação neurológica de Doman e vi, com meus próprios olhos, uma menina de 3 anos (fora outros) ler palavras de ponta cabeça. Em outra situação, uma amiga percebeu que sua filha de 4 está começando a compreender o processo através dos cards utilizados pelo Kumon. É claro que outras atividades foram realizadas, mas deixo aqui estes relatos apenas para não jogarmos boas alternativas no lixo.

Método bom é o que ensina. É aquele que permite que a criança torne o conhecimento seu. Já vi mais de uma família (mais mesmo) relatar que alfabetizou o primogênito no fônico, mas que o segundo filho só engatou mesmo quando começaram algumas atividades do silábico ou outro método. Com isso, quero dizer que o que dita o andar da carruagem são as demonstrações do seu filho. Você pode ter por base um método e lançar mão de uma estratégia avulsa para ganhar atenção, recobrar o ânimo, dar um empurrão em um mais preguiçoso. E não há mal nisso.

Aqui em casa, adotei (pelo menos por enquanto) o material da Professora de Papel.

O método é fônico e sua abordagem é historiada. Nele, cada letra é apresentada com uma história. O alfabeto é uma família, as meninas são as vogais e os meninos as consoantes. As letras “estrangeiras” K, W , Y, são o pai, a mãe e um tio. Nessa história houve uma briga entre os meninos e as meninas. Nessa briga, os meninos gritaram tão alto que acabaram perdendo a voz e agora só conseguem falar se estiverem de mãos dadas com as meninas.  Faço algumas alterações em algumas histórias, já encontrei errinhos ao longo do material e algumas atividades poderiam dar um espaço maior para a criança escrever. Fora essas questões, amo o material.

A cada letra apresentada, a história mostra qual o seu traçado (primeiramente cursivo, depois as letras script são apresentadas, também de forma historiada) e, o que é muito importante, ensina a produzir de maneira correta o som, fonema,  que aquele grafema representa. A história envolve a criança e isso faz com que sua memória ajude a reconhecer cada letra.

Outro material que trabalha com essa linha historiada é o Casinha Feliz e, apesar de ser mais colorido, mais bonito, escolhi o Professora de Papel porque neste a criança vê apenas 1 letra por vez e isso, ao meu ver, respeita mais seu ritmo, dá mais tempo para que internalize.

Vou apresentando letra por letra, contando cada história aos poucos. Minhas filhas gostam bastante. A mais velha ainda quer estar junto para ouvir. Trabalho o traçado de cada letra com calma, primeiro grande, em diferentes tipos de suporte, realizo atividades de colagem, massinha, perfuração. Aproveito e trabalho coordenação motora.  Realizo brincadeira que reforçam alguma noção e deixam o processo mais leve.

  

Ao longo da caminhada também esbarro (ainda) com dias nos quais a falta de vontade em fazer alguma atividade domina a pupila. Muitas vezes isso pode gerar bastante frustração, tanto na criança que quer ir brincar, como na mãe que organizou, planejou e vê seu plano indo pro ralo. Tento ter, para essas horas, atividades que trabalhem aquele ou outro aspecto de uma maneira diferente, mais leve, em forma de brincadeira. Isso faz diferença. Acalma as duas partes. Podemos falar sobre essas alternativas e como aprender a montá-las em outra ocasião.

Por ora fiquemos com estas informações a respeito de alfabetização. No próximo texto pretendo contar um pouco sobre como faço quando percebo que o método deu uma enjoada.

Até mais!

Cibele Scandelari

0-4 Anos, Família, Homeschooling, Maternidade, Metodologias, Planejamentos

Quero praticar HS…mas meu filho ainda nem nasceu…o que posso fazer agora?

Que oportunidade de ouro!

Tenho uma amiga, que mora no meu coração, não paga aluguel e nunca será despejada, que começou o homeschooling com seus dois filhos quando estes já estavam cada um com 9 e 7 anos. Ela afirma, categoricamente, que o mundo de estudo que se abriu para eles,  OS PAIS, é lindo…mas gigante. Muitas, muitas coisas a descobrir, entender, comparar, escolher. Fora que, pelo fato de termos sido intensamente escolarizados, sair dessa caixinha não é nada fácil. Por isso essa minha adorável “inquilina eterna” já disse mais de uma vez: “tem filhos pequenos? Aproveite para estudar. Leia, converse com quem já pratica“. 

Pode ser tentador pensar que, se a criança ainda é muito pequena, ou nem nasceu, dá pra esperar para quando o estudo seja mais “necessário”. Bom…até dá pra esperar, mas já digo de antemão, o arrependimento pode ser pesado e aí a ansiedade de dar conta de entender tudo pode atropelar o que poderia ser algo extremamente prazeroso. (Eu disse prazeroso, não fácil e nem mamão com açúcar).

Ao estudar sobre a prática da educação familiar, procure autores que vivenciaram em suas famílias essa realidade. Ler o que mães com anos de homeschooling e trabalho doméstico nas costas tem a falar pode ser inspirador.

Aprender sobre as diferentes metodologias é super importante. Será que seu estilo será Clássico? A leveza de Charlotte Mason te seduzirá? Vc se apaixonará pela autonomia que Maria Montessori propõe com suas atividades? Será que vc gostará de tudo um pouco e resolverá fazer um pouco de cada?

Se interesse por aprender sobre as fases do desenvolvimento infantil, sobre as coisas importantes que marcam uma infância feliz. Nem só de atividades de alfabetização vive uma mãe (e uma criança) homeschooler! Delicie-se com a realidade de que, nesse estilo de vida, será muito importante estar, brincar, rolar no chão com os filhos.

Aprenda sobre os hábitos básicos, que deverão receber um cuidado constante nos primeiros anos de vida. Falo sobre eles no texto: “Tem filhos pequenos? Foque nos hábitos básicos!”.

Nesse processo de escolhas é importante destacar: sua futura prática homeschooler deve refletir os valores da sua família. No que vcs acreditam? Quais são as ideias que permeiam suas vidas e que vcs não estão dispostos a abrir mão? Ao entrar na aventura do estudo para a prática é de grande valor querer se conhecer. A si, ao cônjuge, as características da família que querem criar. Como vivem a fé? A educação é algo que pode influenciar a vivência da dimensão transcendente e vice-versa.

Outra coisa: percebe que no parágrafo acima, coloquei que a prática deve refletir os que VOCÊS acreditam? Sim…a decisão pela educação familiar não pode ser algo unilateral. Deve ser uma decisão do casal. Comum acordo. Mesmo que um dos dois vá assumir com mais intensidade as atividades que a demanda de aprendizado exija. Sendo assim, este é um ponto a ser pensado. Quando tudo começar de fato, quando a carga de atividades, dúvidas, projetos, necessidades começarem a deslanchar, como o casal enfrentará tudo? Por exemplo, é bom saber que o homeschooling é mais do que simplesmente não colocar os filhos na escola. É um estilo de vida, como dito acima. Todos devem estar preparados para isso. As crianças estarão em casa 24 horas por dia. Isso significará um aumento exponencial do nível de bagunça. Vocês devem saber disso e se preparar. Não quer dizer que não vão viver a luta por educar os filhos na ordem, mas é necessário ter claro que a casa de revista, arrumada, impecável estará lá…na revista.

Então, se vcs já encomendaram o pacotinho com a cegonha e estão namorando essa vida apaixonante da educação domiciliar, não percam tempo e estudem muito! Todos só tem a ganhar!

 

LISTA DE (algumas) LEITURAS (pra começar…):

       

Bons estudos!

Cibele Scandelari