0-4 Anos, ANÁLISE LITERÁRIA, Materiais

Análise: “A árvore generosa”

Aqui está pessoal! Nossa primeira análise literária feita pela querida Letícia! Se vc preferir, acesse o podcast da Porção semanal de literatura no link abaixo. O texto encontra-se abaixo do link.

A árvore generosa 

Shel Silverstein

Esta é uma história do autor norte-americano Shel Silverstein, publicada pela primeira vez em 1964.   Nela,  a árvore é uma grande amiga de um menino, do qual não ficamos sabendo o nome, pois esse menino poderia ser qualquer criança.

Da árvore, já no título, ficamos sabendo que é generosa, então o leitor já fica sabendo que, de alguma forma, essa árvore ajudará alguém. E isso é o que ela faz durante toda a vida do menino, até a velhice deste. Primeiro, é fonte de diversão, de alimento e de repouso. Depois, quando o menino cresce um pouco, vira fonte de renda: o menino vende seus frutos. Passam-se mais alguns anos, e com os galhos da árvore o menino faz uma casa para a sua família. Depois, corta o tronco da árvore, e com ele faz um barco. A árvore acha que se tornou inútil para seu grande amigo, mas no toco que restou, ele encontra um lugar para repousar, pois já é um idoso.

A árvore é símbolo da verdadeira amizade. Pois o verdadeiro amigo quer sempre o bem do outro, mesmo que isso lhe custe tempo, dedicação, ou até mesmo a doação de si próprio. A árvore doou tudo de si para que o menino ficasse contente. E ao final de cada doação, o narrador nos diz: “e a árvore ficou feliz!”. Ela foi tão abnegada na sua amizade, que no fim ela resume-se a um toco. E fica infeliz ao pensar que não servirá mais para nada para o seu amigo: mas ele, já idoso, não quer mais brincar com suas folhas, balançar-se em seus troncos, e também não precisa construir uma casa. Apenas quer repousar. E repousa no toco que restou da árvore. E ela novamente se torna feliz, por ver que faz o seu amigo feliz.

Acredito que essa história pode nos ajudar a ensinar aos pequenos o que é a verdadeira amizade: doação, entrega ao outro, encontro da nossa própria felicidade no ato de proporcionar felicidade ao nosso amigo. Que ensinemos as crianças a serem como a árvore, que doou-se inteiramente. Lembremos que o menino, nessa história, não doa nada para a sua amiga tão dedicada. Não sejamos como ele. Sejamos como a árvore, sempre generosos!

Faixa etária: 4 a 6 anos.

Um abraço!

Letícia

0-4 Anos, Áreas do Conhecimento, Homeschooling, Planejamentos

Contagem e correspondência 1 a 1 para crianças pequenas

Duas noções importantes a serem desenvolvidas logo na primeira infância é a correspondência 1 a 1 e contagem na ordem numérica. Esse tipo de correspondência consiste em estabelecer uma relação, atribuir um elemento único de um conjunto a outro elemento, também único, de outro conjunto. Ao contar os dedos da mão, o que as crianças fazem é estabelecer um “nome” único para cada dedo. A aprendizagem dessa noção de correspondência é necessária para que a criança compreenda o conceito de número e, mais tarde compreenda tudo o que envolve as operações. A contagem na ordem desenvolve a memória e começa a estruturar a lógica matemática. No começo são palavras postas numa determinada ordem, com o passar do tempo cada palavra passa a ter um valor diferenciado dependendo da situação.

Pode parecer lógico, mas é importante destacar que muitas vezes podemos passar por noções que para nós adultos são incrivelmente lógicas, mas que para a criança não são. Realmente não deixam de ser básicas, fáceis, óbvias, mas só possuem essas características para nós devido a toda uma estrutura de vivências, relações, maturidade cerebral, etc que detemos. Precisamos permitir que as crianças tenham as oportunidades de vivenciar estas relações e melhor se puderem contar com quem amam para isso.

Dito isto, gostaria de compartilhar umas atividades muito simples, mas de extrema importância para o desenvolvimento do pensamento lógico-matemático em crianças pequenas. A primeira atividade seria o desenvolvimento do hábito de cantar canções que apresentem a seqüência numérica. Músicas como “1, 2, 3 indiozinhos, 4, 5, 6 indiozinhos, 7, 8, 9 indiozinhos, 10 num pequeno bote..”, ou então, “1,2 feijão com arroz! 3, 4 feijão no prato…”, colocam a contagem numérica em situações que permitem que a criança aproveite a melodia e aos poucos memorize a sequência.  Contar passos até chegar em algum lugar, contar os degraus de uma escada são ótimas oportunidades para trabalhar a sequência numérica.

Paralelamente a isso, é possível fazer uma brincadeira que pode ser montada de diferentes tamanhos, em diferentes lugares. O conceito é muito simples e a brincadeira pode durar poucos minutos. Entretanto, o importante não é o tempo destinado e sim que a criança tenha a oportunidade de fazer suas tentativas após a explicação, brincar com os pais e, mais tarde tentar fazer sozinha. Sem pressão, mas como algo natural (que na realidade é). A brincadeira consiste em desenhar uma tabela de quantas linhas e colunas os pais acharem plausível para a criança. Então, podem trazer vários ursos de pelúcia, ou carrinhos, ou outros objetos e sugerir que cada quadrado é uma casinha que precisa de apenas 1 morador, ou garagem que cabe apenas 1 carro. Após, deixar a criança realizar a montagem da maneira como ela acha que deve. Então, depois que ela fez sua montagem averiguar se cada casinha realmente tinha apenas 1 morador, 1 carrinho, se nenhuma ficou apertada.  É interessante que a atividade seja feita em diferentes lugares e com diferentes materiais, apesar do objetivo ser o mesmo, o contexto para a criança muda, reforçando a ideia por detrás. Após a criança brincar com peças grandes, é possível criar tabelas no papel e pedir que pequenas peças sejam organizadas da mesma maneira. Neste simples jogo a criança passa a desenvolver a noção da correspondência 1 a 1.

Após um tempo brincando assim, é possível tornar a matemática mais viva e pedir que a criança ajude a montar a mesa e pense, por exemplo, quantos pratos é necessário naquele dia? Por que? Depois, quantos copos? Por que?

Outras situações do dia-a-dia ajudam na formação do conceito de correspondência 1 a 1: 1 calçado para cada pé, uma meia para cada pé, uma luva para cada mão, uma toalha para cada pessoa, etc.

Após, ou durante as ricas atividades práticas, é possível que registros sejam feitos onde a criança liga, por exemplo 1 abelha para 1 flor. Aqui, mais um elemento é trabalhado: coordenação motora fina e talvez seja necessário que atividades amplas sejam desenvolvidas, por exemplo que a criança caminhe por sobre uma corda que leva até seu objetivo, depois que realize o traçado em grandes dimensões e vá diminuindo o tamanho desse traçado aos poucos, conforme sua coordenação vai amadurecendo.

Esse tipo de atividade não precisa ser forçada, não devem ser longas e podem ser inseridas como brincadeiras ao longo do dia e logo a criança pode começar a solicitar fazer a sua “atibidadi”, como minha furacãozinho gosta de pedir.

Boa sorte com os seus ciclones!

 

Cibele

0-4 Anos, Áreas do Conhecimento, Homeschooling, Metodologias

O cuidado no olhar alfabetizador

Gostaria de falar um pouco sobre alfabetização e os caminhos que podem ajudar e/ou dificultar esse processo.

Mas antes de qualquer coisa, existe algo que é importante deixar registrado: nós pais temos, com certa urgência, controlar nossa fúria pedagógica (ou talvez nosso orgulho) e parar de querer ver crianças alfabetizadas cada vez mais cedo  só “porque sim”. Só porque, em algum canto obscuro do nosso interior, nosso ego infla e diz para si mesmo “essa criaturinha de 2, 3 anos já está lendo tudo…e quem ensinou foi EU”.

Vejam bem, não sou contra que o processo seja iniciado, aconteça e desemboque numa criança alfabetizada cedo, se essa criança demonstrou interesse e tudo transcorreu bem. Apenas acho que muita gente está comparando os filhos com outras crianças, ou comparando com aquilo que sua imaginação idealizou e está esquecendo que cada um tem o seu ritmo. E isso não é bom nem ruim. É simplesmente o que é. Uma criança que aprende a ler com 7 anos não é, necessariamente, um aluno deficiente em relação a um que aprendeu  com 4. Sim, o homeschooling promove um contato maior com o mundo escrito, as aventuras que se passam dentro dos livros, mas isso não quer dizer que seu filho TENHA que ler antes, muito antes da média nacional. Seu filho tem que desenvolver, gosto… amor pela leitura. Isso sim. E seu acompanhamento constante, seu olhar amoroso, sua atenção às suas necessidades permitirão perceber a vontade de aprender, ou uma real dificuldade (dislexia, falha no processamento  auditivo, visão, etc).

O processo de alfabetização, ao meu ver, deve ser gostoso. Falo um pouco sobre a forma como encaminho o processo aqui em casa nos artigos “Como alfabetizo” e “Como alfabetizo – Parte 2”. Claro que esse processo prazeroso não significa que a criança pode sempre desviar-se das tarefas se estas não a agradarem. Aos poucos é importante que vá desenvolvendo noção de responsabilidade e de sacrifício. No entanto, existem situações nas quais os pais devem estar atentos. Algumas vezes a criança não quer fazer determinada atividade pelo fato da mesma não estar em sintonia com o estilo de aprendizado ou o nível de maturidade da criança.

Por exemplo, existem crianças que necessitam pegar nas coisas para aprender melhor. Outras precisam falar sobre o que estão aprendendo para poder processar as novas informações. Algumas vezes a criança saberia fazer a atividade, mas seu temperamento trava sua iniciativa. São desafios paralelos à alfabetização e devemos entender que eles existem e fazem parte do processo. Dizer simplesmente “esta é a atividade, senta e faça” é dar umas bofetadas num processo que pode ser gostoso. Algumas vezes, repito, a criança terá que sentar e se esforçar mais, enfrentar uma preguiça. Mas é necessário que os pais, quem a acompanha estejam atentos para perceber se algumas vezes não cabe algumas alterações nas atividades propostas.

Tenho percebido essa necessidade aqui em casa. Minha menina que está passando pelo processo de alfabetização, demonstra muita necessidade em que eu esteja por perto. Eu sei que ela já sabe, mas ela ainda está insegura quanto à sua própria capacidade. Minha presença e incentivo preenche o espaço criado pela insegurança.  Em certos aspectos essa necessidade dela não é algo fácil para mim. Meu primeiro impulso é “você já sabe, logo não preciso ficar o tempo todo aqui”. Tenho feito um esforço para conseguir encontrar uma justa medida em dar a presença que ela necessita para sentir-se segura e dar o espaço necessário para que avance em confiança e autonomia no processo.

  

Descobri que uma das coisas que podem ajudar é alterar a maneira como algumas atividades podem ser feitas. Os objetivos permanecem os mesmos, mas a forma como são trabalhados não. Por exemplo, em uma atividade do livro Professora de Papel, material que adotamos para a alfabetização, a criança deve colocar em ordem uma série de palavras para formar uma frase com sentido. Minha filha consegue ler todas as palavras ali colocadas, não falta trabalhar  nenhum fonema. No entanto, ela não queria fazer. Estava extremamente reticente. Ela tentava ler e não entendia o que era para fazer. Eu dei exemplos mas, mesmo assim, a coisa não fluía. Então, pensei (depois de ter passado nervoso, confesso), que talvez ela não tenha maturidade para realizar a atividade da maneira como está proposta. Ela ainda necessita manusear as coisas para conseguir visualizar um resultado. Sua capacidade de abstração ainda é limitada. Então, imprimi as várias frases e recortei cada uma e pedi que fosse colocando-as em ordem até que fizesse sentido. Que mudança! Para algumas ela ainda necessitou da minha presença, mas conseguiu compreender a proposta e deu para ver que sentiu-se muito bem  consigo mesma por ter conseguido fazer. Não conseguimos finalizar tudo, pois ainda não consegue se concentrar por muito tempo, mas fiquei muito feliz em ter tomado a decisão de dar uma afrouxada e escolher outro caminho. Algumas vezes temos que dar um passo atrás para poder seguir adiante. Outras vezes temos que escolher um caminho diferente e não há nada de errado nisso.  

 

Cibele Scandelari

0-4 Anos, FAQ, Homeschooling

Intenção educativa com crianças de menos de 4 anos

Dando continuação ao tema “homeschooling com crianças pequenas”, acredito ser importante que nós, pais e mães educadores (apesar de crer que essa reflexão também valha para famílias escolarizadas), precisamos encontrar a justa medida para nossas ações parentais. Especificamente neste texto, refiro-me a compreendermos que crianças pequenas precisam de estímulos, mas que estes não precisam ser um bombardeio profissional e , por outro lado, não podemos achar que já que um lar acolhedor apresenta-se como a base do desenvolvimento de uma infância saudável, estaríamos livres de prover outras coisas para o bom desenvolvimento integral da criança. É  necessário uma auto avaliação honesta, sem extremismos e um empenho em educar o nosso olhar para a realidade que cerca a criança e desenvolver a intenção de educar sem perder o frescor que a infância tem.

É natural que, ao tomar para si a responsabilidade da educação formal dos filhos, pais escolarizados (que sempre frequentaram a escola) entendam a prática tendo esta instituição como modelo. Frequentemente pensarão  “mas ele estaria fazendo X coisas na escola…eu não estou dando aquela atividade…ele não teria tanto tempo livre assim…”, etc. Apesar de ser um caminho normal da compreensão dos acontecimentos, afirmo com tranquilidade que esse peso não precisa estar sobre os ombros de pais de crianças pequenas se estes pais estão empenhados em fornecer um ambiente amoroso, culturalmente estimulante, equilibrado, com espaço de tempo e lugar para brincar. Se você quer saber um pouco mais sobre desescolarização, encontrará um pouco sobre o assunto NESTE texto.

Historicamente, crianças pequenas nunca foram para a escola. Isso começou a acontecer com a entrada da mulher no mercado de trabalho, principalmente. Essa demanda fez surgir incontáveis “necessidades pedagógicas” e o que antes era aprendido entre a roupa do varal e o café da tarde, agora é colocado dentro do planejamento minucioso e supervisionado.

A intenção educativa pode ser entendida como essa disposição interna dos pais em observar o filho de maneira integral e tanto aproveitar quanto fornecer situações nas quais a criança descubra o deslumbramento pela vida de maneira prática, por meio de perguntas,  de uma escuta interessada, da vivência com os outros, etc. Dessa maneira vamos compreendendo que a aprendizagem acontece o tempo todo e a qualidade e profundidade vai depender, também, da maneira como os adultos encaram a vida. 

O que crianças pequenas devem aprender? Devem aprender a conhecer a suas possibilidades físicas, a relacionar-se consigo mesmas e com os demais, a transcender de si, a desenvolver a vontade para se fazer o que é certo e, por fim, aprender os demais quesitos intelectuais. Seriam 5 dimensões, que abrangem uma educação integral e pessoal (pessoal porque diz respeito àquele serzinho específico): dimensão intelectual, sócio-afetiva, transcendente, física e volitiva (esta última diz respeito à educação da vontade).

Crianças pequenas devem aprender a brincar e a colocar os brinquedos no lugar após a brincadeira, gradativamente a aprender a vestir-se e despir-se (a conquista da autonomia é algo de imensa importância). Devem ter contato com a natureza e, aos poucos familiarizar-se com a observação dos detalhes presentes nas coisas que as rodeiam. Devem ser encorajadas a comunicar suas vontades por meio da fala, cada vez mais elaborada e deixar para trás os balbucios e linguajar infantilizado. Necessitam ser impelidas a dominar suas capacidades físicas em ambientes seguros. Joelhos ralados são marcas necessárias da infância e não matam ninguém. Ao conversar com os filhos os pais devem usar as palavras corretas para cada coisa. Dessa maneira, conceitos de formas,  cores, dimensões, grandezas, etc, são passados de maneira natural, no cotidiano e, então, algum registro pode ser feito. Mas essa folha de atividade deve representar isso: o registro. A aprendizagem se deu de maneira rica no cotidiano.

Pais de crianças pequenas devem, sem sombra de dúvida se preocupar em desenvolver os hábitos básicos em seus filhos. Isso garantirá, inclusive, a gradativa conquista da paz no ambiente familiar. Falo um pouco sobre esse tema no texto “Tem filhos pequenos? Foque nos hábitos básicos!

Quando nos empenhamos em desenvolver essa intenção de educar em cada momento do dia,  aos poucos vai se tornando algo mais natural. Ao subir as escadas podemos contar junto com a criança e estaremos trabalhando a sequência numérica e a correspondência 1 a 1. Ao cantar cantigas de roda enquanto arrumamos a cama estamos trabalhando cultura popular, rimas, altura, ritmo, etc.  Quando a criança encontrar uma joaninha podemos conversar sobre os insetos e mostrar muitas figuras numa breve pesquisada pela internet. Essas são as oportunidades que nos caem no colo, e são lindas. Paralelamente a isso podemos sugerir o que, após observação, achamos que pode ser melhorado, ou conhecido: um momento específico para sentar no tapete e ler uma história, brincar com massinha, desenhar na calçada com giz de quadro, etc.

Se estamos pendentes dos filhos e queremos desenvolver essa intenção de educar, nossa atenção estará voltada para isso e se  desenvolverá.

Tendo isso muito claro, podemos pensar para o próximo texto, numa lista de aspectos a serem observados e desenvolvidos em cada dimensão.

Um abraço!!

Cibele Scandelari

0-4 Anos, FAQ, Homeschooling

Homeschooling e crianças pequenas

Cresce o número de famílias que passam a cogitar seriamente a possibilidade de não enviar seus filhos à escola. Muitas ainda os têm em tenra idade e outras ainda estão na espera. Com essa possibilidade despontando no horizonte logo vêm à cabeça a pergunta: o que precisarei ensinar aos meus filhos nos seus primeiros anos?

Gostaria que neste instante você mãe e/ou pai, parasse um pouco e respirasse fundo. A provável ansiedade por uma iminente tomada de decisão, ou o choque da realidade podem tirar muitos do eixo. Isso somado a uma sociedade que acha que o ser humano deve ser escolarizado no primeiro instante de vida.

Não estou aqui querendo dizer que nada deve ser feito. Não é essa a intenção. Estou querendo amenizar o fogo da ansiedade em querer desmontar a sala de jantar e montar uma “escolinha” no centro de casa.  Veja, seu filho de 1, 2, 3 anos não necessita que você replique em casa o que ele viveria na escola. Sabe por quê? Porque lá, na escolinha, a professora ia quebrar a cabeça para tentar reproduzir coisas que as crianças de antigamente viviam com suas famílias. Fui professora e posso dar exemplos mil: hora da história (como quando os pais lêem para seus filhos, geralmente antes de dormir), mercadinho de brincadeira para vivenciar, brincar uma atividade de compra (antes as crianças iam DE FATO  junto e os pais iam explicando o que estava acontecendo e davam pequenas oportunidades da criança “comprar” algo), brincar de massinha (antigamente as avós faziam o pão em casa e normalmente um pedaço da massa virava brinquedo…). Poderia dar outros exemplos, mas acho que esses são suficientes para mostrar que crianças pequenas precisam da intencionalidade educativa dos pais, salpicada de limites claros e mergulhada no amor incondicional.

Uma criança pequena precisa mesmo é da oportunidade de realmente brincar. Brincar em locais amplos, diferentes, que, de forma segura, a convide a testar suas possibilidades motoras. Uma criança pequena precisa correr, arrastar, engatinhar. Tudo isso se consegue como? Brincando! Qual seria o papel de pais homeschoolers nesse cenário? Proporcionar o ambiente, instigar a brincadeira, procurar amigos que tornem o momento prazeroso, permitir e incentivar as brincadeiras entre irmão (leia mais sobre essa importante interação no artigo “Irmãos, aprendizagem e homeschooling“). Não precisam esperar o sinal das 9:40 da manhã para iniciar uma estimulação motora de 30 minutos com seu filho de 2 anos e meio. O que vão precisar mesmo é sacrificar algumas coisas para conseguir dar conta de proporcionar o que foi acima mencionado.

Sabe por quê passamos a pensar que crianças pequenas necessitam de um planejamento mirabolante? Porque a sociedade atual limitou o espaço da criança, limitou o número de irmãos, deu mais valor para o “look cool” do que para uma roupa de brincar, permitiu que uma geração inteira crescesse inerte à frente de qualquer tela. Isso abriu espaço para a necessidade de que alguém parasse para pensar o que estaria faltando e tentasse dar a essas crianças o que elas fariam naturalmente se tivessem a oportunidade. O fato é que, para a grande maioria das crianças, se a escola não oferecesse a possibilidade do tempo de leitura, da estimulação motora, do brincar de situações cotidianas, ela simplesmente não viveria tudo isso. Muitas crianças hoje no ensino fundamental apresentam algum tipo de dificuldade na alfabetização por conta da falta de desenvolvimento de coordenação motora ampla e fina, que deveria ter sido conquistada em brincadeiras na primeira infância.

Sendo assim, você pai/mãe que estão ou já deram o passo para o homeschooling e seus filhos são pequenos, ao pensar “o que vamos trabalhar com nossos filhos”, digo sem nenhuma dúvida que a principal coisa é permitir que seus filhos brinquem, explorem, corram.  Frequentem o parque, a praça, o clube. Estejam atentos às descobertas. Observem o que chama a atenção de cada criança. Conversem, cantem, leiam. Dê a oportunidade de seu filho fazer coisas sozinho. Dê a oportunidade que ele se frustre. Ajude, mas não faça tudo por ele.

É importante que fique muito claro que uma família homeschooler, onde só existem crianças com menos de 4, 3 anos não precisa seguir um planejamento rígido. É importante para que a mãe  VIVA INTENSAMENTE   a infância das crianças e não esteja perdendo tudo isso porque, na sua cabeça, sua filha deveria ter preenchido 3 atividades e realizado 2 experimentos antes da hora X. Mas não percebeu que ela tentou se equilibrar no meio fio do condomínio, desenvolvendo assim seu equilíbrio e consciência corporal, descobriu um formigueiro e sem perceber a mãe respondeu algumas perguntas que achou “meio sem importância”, prestou atenção no número de colheres de açúcar para fazer o bolo… O mundo de descobertas para uma criança pequena em um único dia é gigantesco!

Os primeiros anos são anos esponja e valem ouro! Viva com intenção educativa, mas viva se deleitando com a oportunidade de poder ver seus filhos desabrocharem.

Sobre essa importância da primeira infância e essa característica “esponja” existir por causa da intensa atividade neurológica, famalos um pouco neste artigo: “Infância- Idade de ouro!”.

Para que essa intenção educativa seja mais consciente (e acalme o coração das mães mais ansiosas) o que pode ser feito é que os pais comecem a perceber o que pode ser destacado para a criança e como em cada situação. Discorrerei sobre isso no próximo texto. Antes disso…respire fundo…relaxe e aproveite a infância deles!

 

Cibele Scandelari