FAQ, Homeschooling

Educação de qualidade já, porque minhas filhas são crianças AGORA

A educação no Brasil precisa sim de melhorias. Precisa de linhas pedagógicas que consigam abarcar as diferentes realidades. Precisa que a verba destinada chegue ao seu real destino e nele seja aplicada da forma correta. Precisa de profissionais bem capacitados. Tenho noção de tudo isso. Já estive em escola pública como funcionária concursada. A melhoria da educação brasileira, assim como outras áreas não acontecerá da noite para o dia. Levará tempo e fará parte de um processo. No entanto, nesse processo, nossos filhos, as minhas filhas existem agora. São crianças AGORA. Estão em desenvolvimento AGORA. Como responsável por elas AGORA, tenho o dever de fazer os sacrifícios para que as elas tenham acesso a uma educação de qualidade, em todos os sentidos. Isso não quer dizer que não ligo para o que acontece fora da minha casa. Quer dizer, apenas, que devo analisar a realidade do poder de ação efetivo que tenho e das prioridades e urgências que são apresentadas a mim.

 Por tudo isso, cabe aqui uma metáfora. Imagine que seu filho é um paciente em um hospital público, o qual você acredita que merece melhor administração. Seu filho necessita de um tratamento especial e você consegue um atendimento mais adequado às necessidades dele em outro lugar, um hospital particular ou um atendimento domiciliar. Nesse atendimento ele terá terapias personalizadas e individuais e, só por isso, os resultados tendem em grande medida a terem rendimento acima da média. Com esse tratamento seu filho viverá melhor. Você deixa a oportunidade passar para lutar pela saúde de qualidade? Deixa seu filho no corredor do hospital que mal possui leitos, remédios, aparelhos, profissionais pagos com dignidade ou leva-o para o lugar no qual ele conseguirá melhorar de verdade? Percebe que uma coisa não tem relação com a outra? Você que tem plano de saúde (eu não tenho…kkk), e pensa que, para lutar pela escola pública é necessário que só ela exista, ou que seja frequentada, também acha isso do SUS? Jogaria fora sua carteirinha do super plano agora?

Fui funcionária pública, estive em escola pública durante algum tempo. Quem está dentro do sistema luta por ele em suas entranhas, é verdade. Mas isso não quer dizer que quem está fora não faz nada. Ouso dizer, inclusive que, algumas vezes, quem não está vinculado de forma alguma tem mais possibilidades, pois não teria nada pessoal a perder. Não seria ameaçado a ser realocado, pressionado de alguma forma. Esse tipo de coisa acontece sim.

Bom, acredito que lutamos por uma educação de qualidade, criando futuras pessoas íntegras, que saberão diferenciar linhas de pensamento escusas, que lutarão pela honestidade e isso desembocará na escola pública e em outras esferas. Nossa linha de atuação pode ser no microcosmos da sala de aula, da secretaria, da prefeitura e/ou no macrocosmos da sociedade, representada por cada família em contato com outras famílias. Esse é um dos vários motivos que acredito que a educação domiciliar deva existir, juntamente com as outras opções educativas em nosso país.

Lutemos pelo direito à escolha. A liberdade faz parte do ser humano e quanto mais este aprende a ser livre e assim atuar, mais chance de termos uma sociedade melhor.

Cibele Scandelari

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FAQ, Homeschooling

Educação Pública de qualidade e Educação Domiciliar

No primeiro texto (AQUI) sobre a relação que algumas pessoas fazem entre a possibilidade da educação domiciliar impedir seus praticantes de se preocuparem com a educação pública, fiz uma reflexão sobre como essa linha de raciocínio abrange outras instituições e como, na verdade, é perigosa. Hoje, gostaria de analisar esse pensamento à luz das palavras contidas em nossa lei máxima.

Existe um parágrafo na Constituição brasileira que diz que a liberdade e pluralismo de ideias são uns dos princípios da educação no país e que aos pais é garantido o direito e dever de assistir, criar e educar os filhos menores. Pois bem. Não é à toa que está na nossa Carta Magna tais palavras. A garantia da pluralidade de ideias, a coexistência de diferentes concepções pedagógicas aumentam as chances de contemplar as mais diferentes realidades e impedem que a educação seja lançada mão como ferramenta de manipulação, seja para qualquer tipo de mentalidade.

Defender a existência da opção pela educação domiciliar não é defender o descaso para com as outras concepções pedagógicas. É, na verdade, lutar pela possibilidade de escolha, direito de qualquer pessoa.

Quem brada dizendo que luta à favor da escola pública e que, por isso, é contra a educação domiciliar, esquece que não precisamos, efetivamente, usar um serviço público para lutar por ele. Seguindo essa linha de raciocínio, nada mais poderia existir que não fosse estatal. E isso é perigoso. Não acha perigoso? Então, vamos a um exemplo: imagine você não poder escolher o que ver na internet pois o governo detém o controle dos meios e ele escolhe por você o que pode ou não ter acesso. Não precisamos ir muito longe para conseguir exemplos disso… Certas coisas estão na Constituição para garantir que os cidadãos do país possam gozar de direitos, compreender suas responsabilidades, serem cobrados por elas.

Outro argumento contra essa linha de raciocínio é que a existência de um serviço básico nos moldes públicos não impede, não inviabiliza, necessariamente, a existência desses serviços em outros moldes, ou outras formas de conseguir os mesmos resultados. Do contrário teremos que pensar a existência dos transportes particulares, por exemplo.

Privar as famílias de uma possibilidade de escolha vai contra a Constituição e não melhorará o ensino público que sofre, principalmente, com a corrupção (motivo pelo qual a verba não chega). Esta monstra assola o país como um todo e é nela que devemos atacar. E atacaremos através de pessoas bem formadas, com pontos de vistas diferentes, capazes de analisar a realidade sob perspectivas multifacetadas, com maiores chances de encontrar soluções. Ter uma única via de ensino garante apenas e tão somente a produção de um ensino massificante, produtor de indivíduos usuários de antolhos colocados ao longo de muitos anos de uma educação destinada a limitar a visão e forçar o olhar apenas para uma forma de pensar. A realidade, no entanto, é diversificada. É tão rica que necessitamos do olhar dos outros para compreender o todo, ou vislumbrar o caminho para tal empreitada. Para isso, precisamos garantir a pluralidade e a real qualidade em todas essas possibilidades.

Certos assuntos precisam ser pensados e repensados…por isso este ainda não acabou. Continuarei a refletir e a expor minhas opiniões, na busca, sincera, pela verdade dos fatos baseados na realidade.

 

Cibele Scandelari

FAQ, Homeschooling

Luto pela educação pública. Sou contra o homeschooling!

Fomos feitos para viver em sociedade. Acredito verdadeiramente que encontramos o vislumbre da real felicidade quando nos vivemos para os outros e não para nosso umbigo. Poucas são as pessoas que realmente não sentem falta alguma de conversar, estar perto, aprender, sorrir, conviver com outras pessoas. Neste sentido, é necessário que, como indivíduos, nos preocupemos com o cuidado do nosso entorno, das nossas relações interpessoais. Esse cuidado afeta a todos, inclusive a nós mesmos. Essa preocupação honesta promove um efeito positivo na teia social e, à medida que cada um procura fazer a sua parte, a sociedade passa a caminhar para uma situação mais próspera. É importante deixar claro que a situação não será perfeita, pois nós não somos.

O que isso tem a ver com a educação domiciliar? Bom, para muitos, a ideia de que algumas famílias possam querer retirar seus filhos da escola para prover sua educação em âmbito integral pode parecer, claramente, que desejam que seus filhos não participem do mundo, que cresçam longe da realidade, que não façam parte da sociedade. E, como eu disse acima, por sermos seres sociais, isso traz uma sensação de que algo pode não estar correto. Geralmente essa sensação vem acompanhada de uma das mais frequentes dúvidas ou argumentos de quem se coloca contra o homeschooling: como as crianças crescerão sem a convivência com os demais? Como desenvolverão senso de comunidade se forem afastadas da escola? Para quem sempre viveu numa sociedade escolarizada, cresceu na rotina escolar, é compreensível que enxergue o mundo sob esse prisma, considero normal que pensem assim. Na sequência da lógica de pensamento, não é raro que então a pessoa afirme que é contra o homeschooling porque acredita que devemos lutar por uma escola pública de qualidade. E é sobre este aspecto que gostaria de falar um pouco mais.

Apesar de uma coisa não ter, objetivamente, nada a ver com a outra, consigo compreender as preocupações de quem pensa assim. A linha de raciocínio é, mais ou menos, a seguinte: famílias que tiram seus filhos das escolas públicas não têm motivos para se preocupar com tais instituições, uma vez que não mais as frequentam. E, uma vez que a escola pública de qualidade é uma necessidade em nossa sociedade, essa lógica as faz ser contra a educação domiciliar. Muitos não percebem que, seguindo essa forma de pensar, deveriam ser contra a escola particular também, as escolas de reforço escolar e a tudo que possa desviar o foco da instituição pública, caminhando para uma diminuição bastante rápida das liberdades individuais garantidas até mesmo pela Constituição. Diminuição dos direitos de escolha.

Muitos acham que existindo apenas a escola pública, a pressão para com o governo feita pela “elite” seria muito maior, uma vez que seus filhos estariam ali. O que esse pensamento significa realmente? Nessa linha de raciocínio os alunos abastados teriam uma escola melhor pois seus pais teriam condições de pressionar e até pagar os políticos para isso. É…acho que aconteceria mesmo isso. Mas também acho que aconteceria tão bem feito que escolas inteiras seriam construídas, seriam “públicas”, mas públicas para só alguns tipos de pessoas. E, voilá, teríamos as escolas “particulares” novamente.

Não precisamos de apenas um tipo de escola para garantir qualidade. Precisamos garantir que o ser humano tenha liberdade, possa ter oportunidades para ter contato com dados primários (ou algo próximo) para o estudo de história, que seja instigado a analisar a realidade, que tenha contato com uma educação verdadeira, independente de onde isso aconteça.

Quem acha que o homeschooling, a escola privada são ruins, acredita que essas alternativas não deveriam existir e que isso, a inexistência dessas alternativas, contribuiria para a diminuição das diferenças de classe. No entanto, essa é uma ideia que contraria frontalmente o direito de escolha das pessoas e, se fosse implementada, não garantiria diminuição de diferença e nem a qualidade, mas garantiria sim a planificação do ensino. Com apenas um tipo de escola, teríamos apenas uma ideia de educação. Quem define o que é bom? Quais aspectos seriam levados em conta? A quem estes aspectos iriam beneficiar? Quando ficaríamos sabendo sobre isso? Acho perigoso que a educação de uma nação inteira, todos os aspectos, todas as minúcias sejam definidos por um grupo seleto de pessoas e que se abra espaço para, cada vez mais, as instituições, as regiões serem esvaziadas de suas características locais, interesses próprios comunitários, crenças em nome do que essas poucas pessoas acreditam. Uma nação cresce com a liberdade! Com debate saudável de ideias! E isso só existe a partir a possibilidade da pluralidade de concepções de pensamento, concepções pedagógicas. Através do respeito às liberdades de consciência.

 

No próximo texto (AQUI) poderemos refletir um pouco mais sobre o que a Constituição nos diz sobre  a liberdade e o pluralismo de ideias no âmbito educacional, levando em consideração a ideia de que é preciso estudar na escola pública para lutar por ela. Se somos à favor da democracia a Constituição deve servir de alguma coisa, não é?

 

Cibele Scandelari

Aspectos Jurídicos, FAQ

Posso praticar homeschooling estando divorciada?

Algum tempo atrás me fizeram essa pergunta. Aqui está a resposta.

No Brasil, hoje, escolher pela prática da educação domiciliar pode parecer ousado para muitos. Ousado, principalmente do ponto de vista jurídico. A situação jurídica do homeschooling  no país pode ser motivo para longas conversas, apesar de não existir um único dispositivo, parágrafo, nada que o proíba.

No caso de famílias com pais divorciados, a partir do momento em que a justiça determina a guarda, a pessoa responsável  tem todo o direito de escolher qual será a via educacional que o filho estará imerso. O pai não conseguiria tirar a guarda da mãe pelo fato de não concordar com a prática educativa em si, a não ser que prove que a criança está em risco, que existe caso de abandono intelectual.

Esta seria a realidade se a examinássemos o ponto puramente a partir do fato de não existir dispositivo que proíba a educação  e recentemente a mesma ter sido considerada constitucional. No entanto, na prática, acaba tomando nuances um pouco (algumas vezes muito) mais complexas e é importante que isso fique claro. Se o pai (ou mãe) que perdeu a guarda  não concorda com o homeschooling, pode partir dele uma denúncia e o Conselho Tutelar tem a obrigação de averiguar as condições nas quais a criança está. Muitas vezes a sequência dos acontecimentos é que o caso seja encaminhado para o Ministério Público e, assim pode ter  início o processo. Existe sim a possibilidade disso acontecer  pelo fato de, como já foi dito, não existir legislação sobre o tema e o mesmo deve ser averiguado caso a caso. No entanto esse é uma possibilidade que todas as famílias educadoras estão sujeitas até o momento.

Se o divórcio foi amistoso e todas as partes concordam com o estilo de educação, obviamente a coisa fica mais tranquila. Não existe um documento pronto para se fazer nesse sentido, mas uma declaração pode ser feita dizendo que o pai (ou mãe) concorda com a escolha do ex cônjuge e deixar a declaração, com firma reconhecida em cartório, com quem possui a guarda. 

Caso uma denúncia venha a ocorrer, de qualquer pessoa, mas principalmente pela família do ex, a declaração pode ser anexada ao processo  como prova de que o ex estava de acordo.

Se os envolvidos expressam verbalmente estarem de acordo, dificilmente uma denúncia por parte da família viria. No entanto, criar uma declaração pode vir a dar maior segurança para uma das partes.

É importante deixar claro que não sou advogada. Sou apenas uma mãe homeschooler questionada a respeito disso e que procurou averiguar a questão diretamente com o presidente da ANED (Associação Nacional de Educação Domiciliar), Ricardo Dias. O texto tem apenas o teor informativo. Não afirma que nada acontecerá e nem que a denúncia é certeira. Assim como toda família homeschooler está sujeita a denuncias, vindas de diferentes fontes (inclusive familiares),   pessoas divorciadas que querem praticar a educação domiciliar também podem sofrer esse revés.

Cibele

FAQ, Maternidade

Rotina e organização de um lar homeschooler

No texto “Homeschooling e e a rotina de organização do lar” comentei  sobre o que já tentei fazer e não deu certo e sobre as escolhas que tenho aplicado em momentos caóticos. Prometi continuar a falar um pouquinho sobre o tema e nessa promessa falei que iria comentar sobre a mágica que a simplicidade e a constância podem fazer dentro do dia a dia de um lar.

Sou uma mãe, dona de casa, mulher em desenvolvimento. Sou fruto de uma geração educada quase que à marteladas a olhar sempre para fora da casa, para o mercado de trabalho. Ainda bem que tive o exemplo da minha mãe como mãe presente e dona de casa e de minhas avós.  Sim, somos super capazes de estar lá fora, no disputado mercado,  no entanto a casa aconchegante e gostosa de se viver não é feita de bons materiais de construção. É feita de calor humano, de amor e de rotina, insistência, suor, cansaço e, ” meu Deus! A pia está cheia de novo?!”. Esse trabalho que retorna num lar que deixa sua marca nas memórias de infância das crianças  e que permeia o amadurecimento, amizade e amor entre o casal, não possui holofotes e há quem veja com desdém. Pois bem, pode desdenhar, minha casa será um lar, luminoso, alegre e não um dormitório.

Para isso tenho me esforçado em não criar rotinas mirabolantes. A simplicidade nos ajuda a dar valor para aquilo que é importante. Pare para pensar em quais coisas são importantes e liste-as. Aquelas que precisam ser feitas, mas que não são urgentes podem ser agendadas para um dia específico e você poderá se organizar com antecedência para cumprir aquele propósito.

Já compreendi que a educação das meninas vem antes da casa no aspecto importância. Em situações que a organização básica irá demorar um pouco mais e, por exemplo, iremos sair em algum momento do dia, mesmo que eu esteja tilintando para arrumá-la, me seguro e realizo primeiro os estudos. A casa SEMPRE vai ter o que arrumar, limpar, varrer, aspirar. O tempo de estudo das minhas filhas nesses dias é limitado e infinitamente mais precioso. Por  isso e pelo fato de termos que melhorar na virtude da ordem (ai, ai) nossa casa sempre está um pouco (ou muito) bagunçada. Então após os estudos procuro atacar na ordem e coloco as meninas para ajudar em algumas coisas. Quando não iremos sair, procuro dar uma passada pelos cômodos, colocando as coisas básicas no lugar. Tento mostrar a elas que esse processo também necessita que participem e então vamos estudar.

Iniciamos as tarefas num ambiente minimamente organizado. O mesmo vai sendo bagunçado ao longo do tempo por causa das irmãs menores, por conta de jogos, picotes, etc. Mas esta é a bagunça que veio com os estudos e é saudável. O que não dá é estudar no meio da gordura, da pilha de roupa suja, misturando papel de estudo com conta de luz.

A constância pode ser um desafio para muitos, mas quando consigo seguir com minha rotina de maneira constante, num compasso adequado ao ritmo da família, as coisas fluem melhor. Rotina não é chatice. Ela permite que as coisas andem! E para isso a constância será necessária.

Nessa rotina que depende do meu empenho, da minha constância, procuro lavar roupa quase todos os dias da semana, almoço tento fazer com que o que cozinhei em um dia possa servir para o outro também. Também tento congelar alguns pratos para facilitar a vida. Ao entrar em um quarto mostro para as meninas que tudo que não é daquele cômodo deve sair e ir para a “casinha” dele. O que fica e está fora do lugar deve ser arrumado.  Elas já colocam suas roupas íntimas no lugar (muito embora eu tenha que pedir ainda) e já colocam suas roupas no armário, apesar de ser “do jeito delas”.  Em resumo, estou incluindo minhas filhas cada vez mais na organização da casa sem fazer com que percam o tempo de brincar.

Bom…por enquanto é isso. Conforme eu for amadurecendo, tendo novas ideias para com a rotina vou escrevendo sobre essa caminhada. Tenho muito a melhorar e reconhecer é apenas o primeiro passo da melhora. Sendo assim…deixa eu ir lá arrumar aquela pilha de roupa.

Um abraço!

Cibele