Família, Maternidade

O dilema do uso da chupeta

Dia desses fui ao supermercado perto de casa. Não pude deixar de perceber, ao chegarem perto de mim, uma mãe e seus dois filhos. Um menino de uns 3 ou 4 anos e uma menina maior, por volta de 9 anos.  A presença deles ficava me chamando a atenção por causa da dita chupeta. Você deve estar pensando: “Ora, uma chupeta numa criança de 3 anos não é o mais correto, mas não para ficar chamando atenção assim…”. Porém não era o menino que ostentava o bico pra cima e pra baixo no mercado. Sim… era a menina. Não era uma criança com qualquer síndrome aparente. Conversava com sua mãe perfeitamente para sua idade, sem tirar, em nenhum momento o “pacificador” de sua boca. Apesar de sua fala ficar truncada com chupeta na boca, a mãe não pedia pra tirar e ela não mostrava vergonha de nenhum tipo.

Bom…antes de continuar, queria esclarecer que não demonizo a chupeta e nem a acho a solução dos problemas das famílias com crianças pequenas. Não minto: tentei, em momentos de maior cansaço, ver se conseguia um pouco mais de tranqüilidade através do “bico”. Minhas duas primeiras filhas cuspiam, dava-lhes ânsia. A terceira até que teria uma disposição um pouco maior para usar, a quarta fez de brinquedo.  Não insisti. Já me falaram que seria necessário insistir um pouco mais. Tentar alguns dias seguidos e que todas iriam “pegar”.

No entanto, nunca fui muito fã da dita cuja. Concordo que em muitos momentos, para muitas famílias ela representa uma válvula de escape, tanto para a mãe extremamente cansada, quanto para a criança que ainda está aprendendo a sentir os desconfortos sem ter a menor ideia do que são. Nessas situações, acredito que seu uso evite um maior desgaste da família como um todo, pois, sejamos sinceros, ter um bebê em casa é algo muito, muito bom, mas também pode ser muito cansativo e a família precisa estar unida nesse momento.

Tenho uma amiga, quase irmã, que tem um fluxo de leite abundante e seus filhos simplesmente não precisavam fazer esforço algum para mamar. Resultado: aqueles que não pegaram a chupeta tiveram problemas em suas arcadas dentárias e músculos faciais. Aqueles que pegaram a chupeta estão com tudo no lugar. No mínimo interessante, não é?

Nunca fui muito fã por acreditar que existiria uma maneira melhor de acalmar a criança, de ensiná-la a controlar-se. Também tinha receio que a chupeta acabasse sendo, além de uma muleta psicológica para minhas filhas, uma saída fácil para mim. Nem todas as saídas fáceis são erradas, eu sei, mas as coisas de valor costumam custar um pouco mais. Preferi penar um pouco mais algumas vezes. O resultado disso foi que, até o momento, nenhuma filha minha usa chupeta e eu e meu marido procuramos incentivá-las a descobrir meios de controlar impulsos de frustração, raiva, tristeza. Essa foi uma decisão tomada em parceria.

Mais uma vez torno a repetir: não ruim, o fim do mundo, um casal de comum acordo, depois de combinar as regras do uso, escolher pelo uso da “peta”. Mas, como explicitei aqui, deve ser uma decisão consciente. Quais serão os momentos nos quais a criança poderá usar? Até qual idade? Quais regras?

Além disso, acredito ser extremamente importante e útil ouvir especialistas. O que os pediatras, odonto-pediatras e psicólogos falam a respeito?

Pessoalmente, acredito que se casal opta pelo uso, recomendaria que fosse apenas para dormir. Que não fosse criada uma dependência artificial para acalmar a criança num acidente por exemplo. Que o uso fosse apenas dentro de casa, no âmbito privado e que não existissem chupetas infinitas que brotassem em todos os cantos da casa.  Se a criança dorme algumas vezes fora de casa (avós, tios, escolinha) que leve apenas uma e que o combinado seja de retirá-la da mochila apenas na hora do soninho. Nada de usar para entrar no carro quando os pais chegam para buscá-la. Qual o motivo do uso nesta situação? Sinto-me impelida a analisar como uma dependência não sadia… está com a família, não dormirá naquele momento, está tudo bem. Não existe motivo!  Isso que eu acho que o único motivo deveria ser ir dormir…

Bom, voltemos à menina no mercado. 9 anos! O que fazia naquela boca uma chupeta? Que tipo de base emocional esta criança está desenvolvendo? Que auto imagem faz de si mesma? Terá coragem suficiente para enfrentar os desafios que, com certeza, a vida lhe trará?

Tenho visto muitas crianças, com mais de 2, 3 anos ostentando a chupeta. E me parece que o motivo de estar em suas bocas não é algo consciente para os pais. Está ali simplesmente porque o casal não planejou adequadamente seu uso e agora a única coisa que conscientemente querem evitar são os acessos de choro.

Sim, existem crianças que não apresentaram dificuldades para deixar da chupeta. Mas também há aquelas que sofrem. E muito. Acredito que dependendo da estrutura psicológica da criança e do tempo de uso, sua dependência vá se acentuando e a despedida seja mais dolorida.

Como será que vai ser a despedida dessa menina de 9 anos?

Que sejamos pais dispostos a ter uma proximidade tal de nossos cônjuges, que essas decisões sejam tomadas de maneira consciente, amorosa, visando o bem e o amadurecimento da criança e também o bem da família. Que não tomemos as decisões só porque parecem mais fáceis. Que ajudemos nossas crianças a amadurecer, com carinho e firmeza.

 

Cibele Scandelari

Aspectos Jurídicos, FAQ

Posso praticar homeschooling estando divorciada?

Algum tempo atrás me fizeram essa pergunta. Aqui está a resposta.

No Brasil, hoje, escolher pela prática da educação domiciliar pode parecer ousado para muitos. Ousado, principalmente do ponto de vista jurídico. A situação jurídica do homeschooling  no país pode ser motivo para longas conversas, apesar de não existir um único dispositivo, parágrafo, nada que o proíba.

No caso de famílias com pais divorciados, a partir do momento em que a justiça determina a guarda, a pessoa responsável  tem todo o direito de escolher qual será a via educacional que o filho estará imerso. O pai não conseguiria tirar a guarda da mãe pelo fato de não concordar com a prática educativa em si, a não ser que prove que a criança está em risco, que existe caso de abandono intelectual.

Esta seria a realidade se a examinássemos o ponto puramente a partir do fato de não existir dispositivo que proíba a educação  e recentemente a mesma ter sido considerada constitucional. No entanto, na prática, acaba tomando nuances um pouco (algumas vezes muito) mais complexas e é importante que isso fique claro. Se o pai (ou mãe) que perdeu a guarda  não concorda com o homeschooling, pode partir dele uma denúncia e o Conselho Tutelar tem a obrigação de averiguar as condições nas quais a criança está. Muitas vezes a sequência dos acontecimentos é que o caso seja encaminhado para o Ministério Público e, assim pode ter  início o processo. Existe sim a possibilidade disso acontecer  pelo fato de, como já foi dito, não existir legislação sobre o tema e o mesmo deve ser averiguado caso a caso. No entanto esse é uma possibilidade que todas as famílias educadoras estão sujeitas até o momento.

Se o divórcio foi amistoso e todas as partes concordam com o estilo de educação, obviamente a coisa fica mais tranquila. Não existe um documento pronto para se fazer nesse sentido, mas uma declaração pode ser feita dizendo que o pai (ou mãe) concorda com a escolha do ex cônjuge e deixar a declaração, com firma reconhecida em cartório, com quem possui a guarda. 

Caso uma denúncia venha a ocorrer, de qualquer pessoa, mas principalmente pela família do ex, a declaração pode ser anexada ao processo  como prova de que o ex estava de acordo.

Se os envolvidos expressam verbalmente estarem de acordo, dificilmente uma denúncia por parte da família viria. No entanto, criar uma declaração pode vir a dar maior segurança para uma das partes.

É importante deixar claro que não sou advogada. Sou apenas uma mãe homeschooler questionada a respeito disso e que procurou averiguar a questão diretamente com o presidente da ANED (Associação Nacional de Educação Domiciliar), Ricardo Dias. O texto tem apenas o teor informativo. Não afirma que nada acontecerá e nem que a denúncia é certeira. Assim como toda família homeschooler está sujeita a denuncias, vindas de diferentes fontes (inclusive familiares),   pessoas divorciadas que querem praticar a educação domiciliar também podem sofrer esse revés.

Cibele

FAQ, Maternidade

Rotina e organização de um lar homeschooler

No texto “Homeschooling e e a rotina de organização do lar” comentei  sobre o que já tentei fazer e não deu certo e sobre as escolhas que tenho aplicado em momentos caóticos. Prometi continuar a falar um pouquinho sobre o tema e nessa promessa falei que iria comentar sobre a mágica que a simplicidade e a constância podem fazer dentro do dia a dia de um lar.

Sou uma mãe, dona de casa, mulher em desenvolvimento. Sou fruto de uma geração educada quase que à marteladas a olhar sempre para fora da casa, para o mercado de trabalho. Ainda bem que tive o exemplo da minha mãe como mãe presente e dona de casa e de minhas avós.  Sim, somos super capazes de estar lá fora, no disputado mercado,  no entanto a casa aconchegante e gostosa de se viver não é feita de bons materiais de construção. É feita de calor humano, de amor e de rotina, insistência, suor, cansaço e, ” meu Deus! A pia está cheia de novo?!”. Esse trabalho que retorna num lar que deixa sua marca nas memórias de infância das crianças  e que permeia o amadurecimento, amizade e amor entre o casal, não possui holofotes e há quem veja com desdém. Pois bem, pode desdenhar, minha casa será um lar, luminoso, alegre e não um dormitório.

Para isso tenho me esforçado em não criar rotinas mirabolantes. A simplicidade nos ajuda a dar valor para aquilo que é importante. Pare para pensar em quais coisas são importantes e liste-as. Aquelas que precisam ser feitas, mas que não são urgentes podem ser agendadas para um dia específico e você poderá se organizar com antecedência para cumprir aquele propósito.

Já compreendi que a educação das meninas vem antes da casa no aspecto importância. Em situações que a organização básica irá demorar um pouco mais e, por exemplo, iremos sair em algum momento do dia, mesmo que eu esteja tilintando para arrumá-la, me seguro e realizo primeiro os estudos. A casa SEMPRE vai ter o que arrumar, limpar, varrer, aspirar. O tempo de estudo das minhas filhas nesses dias é limitado e infinitamente mais precioso. Por  isso e pelo fato de termos que melhorar na virtude da ordem (ai, ai) nossa casa sempre está um pouco (ou muito) bagunçada. Então após os estudos procuro atacar na ordem e coloco as meninas para ajudar em algumas coisas. Quando não iremos sair, procuro dar uma passada pelos cômodos, colocando as coisas básicas no lugar. Tento mostrar a elas que esse processo também necessita que participem e então vamos estudar.

Iniciamos as tarefas num ambiente minimamente organizado. O mesmo vai sendo bagunçado ao longo do tempo por causa das irmãs menores, por conta de jogos, picotes, etc. Mas esta é a bagunça que veio com os estudos e é saudável. O que não dá é estudar no meio da gordura, da pilha de roupa suja, misturando papel de estudo com conta de luz.

A constância pode ser um desafio para muitos, mas quando consigo seguir com minha rotina de maneira constante, num compasso adequado ao ritmo da família, as coisas fluem melhor. Rotina não é chatice. Ela permite que as coisas andem! E para isso a constância será necessária.

Nessa rotina que depende do meu empenho, da minha constância, procuro lavar roupa quase todos os dias da semana, almoço tento fazer com que o que cozinhei em um dia possa servir para o outro também. Também tento congelar alguns pratos para facilitar a vida. Ao entrar em um quarto mostro para as meninas que tudo que não é daquele cômodo deve sair e ir para a “casinha” dele. O que fica e está fora do lugar deve ser arrumado.  Elas já colocam suas roupas íntimas no lugar (muito embora eu tenha que pedir ainda) e já colocam suas roupas no armário, apesar de ser “do jeito delas”.  Em resumo, estou incluindo minhas filhas cada vez mais na organização da casa sem fazer com que percam o tempo de brincar.

Bom…por enquanto é isso. Conforme eu for amadurecendo, tendo novas ideias para com a rotina vou escrevendo sobre essa caminhada. Tenho muito a melhorar e reconhecer é apenas o primeiro passo da melhora. Sendo assim…deixa eu ir lá arrumar aquela pilha de roupa.

Um abraço!

Cibele

Família, Maternidade

Você alimenta a infância do seu filho com que tipo de música?

Quando eu tinha uns 10 anos e estava na antiga quarta série, minha professora daquele ano , professora Lisa Simone, fez uma atividade que me marcou muito. Lembro da sensação durante e depois da atividade e também lembro de ter pensado: por quê não fazem mais vezes isso? A atividade não foi nenhum passeio ou situação “estrambólica”. Foi simples. Em uma tarde normal a professora pediu que todos nós apoiássemos nossas cabeças nas carteiras, da forma que fosse mais confortável, que fechássemos os olhos e que ouvíssemos com atenção a música que seria tocada. Enquanto a obra fosse apresentada, a professora nos convidou a imaginar alguma situação e que a composição fosse a trilha sonora. Lembro de ter relaxado muito, de ter vivido uma grande aventura e de ter ficado com a sensação de que ficamos por muito tempo ali. Foi uma experiência extremamente gratificante e a redação que dali surgiu foi uma delícia de escrever.  Era uma música “clássica”, erudita, instrumental. Como eu disse, me marcou muito.

Realmente, a dúvida que tive naquela época era justa: por quê não nos colocavam mais em contato com aquele tipo de composição? Por quê a música mais elaborada não tinha seu lugar dentre outros estilos tocados á exaustão  e, muitas vezes,  de uma qualidade extremamente duvidosa? Acredito que, como para com outras coisas, somos fruto de uma geração que quis se desprender completamente da que a precedeu. Tudo foi jogado fora, ou rechaçado com bastante veemência: valores, ideais, modos de encarar a vida, meios de amadurecer, o próprio amadurecimento em si. Dentre essas coisas, a música também sofreu reviravoltas. Não estou querendo dizer que acredito que apenas a música erudita preste, não (até mesmo porque quem me conhece sabe que gosto bastante de um rock :)). No entanto, a música mais elaborada, por ter uma compreensão mais difícil de ser alcançada, foi sendo deixada de lado. Foi sendo vista como coisa de gente velha. Não precisava escutar só ópera, mas era necessário sumir com ela da vida das pessoas?

Música não é apenas algo que escutamos com determinada melodia, harmonia, ritmo. Ela também está incluída dentro do caldo cultural que cozinha a mentalidade da época. Ela influencia os trejeitos, a vestimenta, os objetivos, os heróis daquela geração. Acredito que, visto por esse ponto de vista a música exerce grande importância no tipo de homens e mulheres , de pessoas que constroem o nosso mundo. Ela não é a única peça do quebra cabeça, mas é uma peça importante e quando negligenciada na infância pelos pais, na adolescência, quando o indivíduo começar a experimentar as primeiras brisas de liberdade, irá querer ter contato com pacotes mais completos daqueles apresentados pelas tendências musicais da época. Alguns inocentes, divertidos, bonitos e outros com consequências muito prejudiciais para a vida de quem embarca naquela livre escolha. Principalmente se o caráter, a vontade daquele jovem foi negligenciado e o mesmo não tem maturidade para discernir que aquela moda vinda com aquele estilo não é só moda, mas um caminho que talvez não tenha volta. É necessário que a família acompanhe o amadurecimento da criança e ajude-o a amadurecer. Isso passa também pela educação da vontade e esse acompanhamento também está na responsabilidade da família em prover contato com situações que apresentem o belo, o difícil, a conquista. Falo um pouco sobre isso nos textos: “Como educar a vontade: parte 1” e continuações.

Fomos perdendo, por rebeldia, a presença de um estilo musical denso, de profunda qualidade e fomos dando todo o lugar a músicas que passaram a imbecilizar os jovens, coisificar as pessoas (principalmente a mulher), sem falar na perda da qualidade musical.

Não apenas não expomos nossas crianças a repertórios de qualidade mais profunda como não é difícil ter contato com famílias que acham normal, bonito, saudável levar, por exemplo, meninas de 5 anos em “shows” de cantoras que o que mais sabem fazer é sexualizar ao máximo seus trejeitos, colocar a mulher como objeto dentro de músicas com qualidade musical muito ruim. 5 anos é idade para brincar, educar os ouvidos  com sons variados e não para colocar um shortinho e rebolar até o chão.  Estão percebendo como a música é muito mais do que aquilo que entra pelos ouvidos? É estética que entra pelos poros, é modelo de ser que vai impregnando na alma.

Não precisa ser música de apenas um tipo, repito, mas é importante que fique claro: música de qualidade enriquece o imaginário, trabalha a criatividade, melhora a concentração e ativa mais partes do cérebro. Aí eu te pergunto: Você alimenta a infância do seu filho com que tipo de trilha sonora?

 

Cibele Scandelari

Homeschooling, Sem categoria

Família Barlavento para Vida nos Trilhos – Podcast

E nesta sexta, dia 08/02/2019, tive o prazer de participar do podcast Vida nos Trilhos a convite dos simpaticíssimos Edward Schimitz e  Jeferson Peres.

Conversamos sobre homeschooling e alguns dos mitos que atualmente pairam sobre o imaginário popular a cerca do tema. Foi muito bom!

Procure compartilhar com seus amigos! Principalmente se você acredita que este conteúdo pode ajudar alguém em específico.

#vidanostrilhos

Segue a entrevista! VIDA NOS TRILHOS – Entrevista Cibele Scandelari