Família, Maternidade

Você alimenta a infância do seu filho com que tipo de música?

Quando eu tinha uns 10 anos e estava na antiga quarta série, minha professora daquele ano , professora Lisa Simone, fez uma atividade que me marcou muito. Lembro da sensação durante e depois da atividade e também lembro de ter pensado: por quê não fazem mais vezes isso? A atividade não foi nenhum passeio ou situação “estrambólica”. Foi simples. Em uma tarde normal a professora pediu que todos nós apoiássemos nossas cabeças nas carteiras, da forma que fosse mais confortável, que fechássemos os olhos e que ouvíssemos com atenção a música que seria tocada. Enquanto a obra fosse apresentada, a professora nos convidou a imaginar alguma situação e que a composição fosse a trilha sonora. Lembro de ter relaxado muito, de ter vivido uma grande aventura e de ter ficado com a sensação de que ficamos por muito tempo ali. Foi uma experiência extremamente gratificante e a redação que dali surgiu foi uma delícia de escrever.  Era uma música “clássica”, erudita, instrumental. Como eu disse, me marcou muito.

Realmente, a dúvida que tive naquela época era justa: por quê não nos colocavam mais em contato com aquele tipo de composição? Por quê a música mais elaborada não tinha seu lugar dentre outros estilos tocados á exaustão  e, muitas vezes,  de uma qualidade extremamente duvidosa? Acredito que, como para com outras coisas, somos fruto de uma geração que quis se desprender completamente da que a precedeu. Tudo foi jogado fora, ou rechaçado com bastante veemência: valores, ideais, modos de encarar a vida, meios de amadurecer, o próprio amadurecimento em si. Dentre essas coisas, a música também sofreu reviravoltas. Não estou querendo dizer que acredito que apenas a música erudita preste, não (até mesmo porque quem me conhece sabe que gosto bastante de um rock :)). No entanto, a música mais elaborada, por ter uma compreensão mais difícil de ser alcançada, foi sendo deixada de lado. Foi sendo vista como coisa de gente velha. Não precisava escutar só ópera, mas era necessário sumir com ela da vida das pessoas?

Música não é apenas algo que escutamos com determinada melodia, harmonia, ritmo. Ela também está incluída dentro do caldo cultural que cozinha a mentalidade da época. Ela influencia os trejeitos, a vestimenta, os objetivos, os heróis daquela geração. Acredito que, visto por esse ponto de vista a música exerce grande importância no tipo de homens e mulheres , de pessoas que constroem o nosso mundo. Ela não é a única peça do quebra cabeça, mas é uma peça importante e quando negligenciada na infância pelos pais, na adolescência, quando o indivíduo começar a experimentar as primeiras brisas de liberdade, irá querer ter contato com pacotes mais completos daqueles apresentados pelas tendências musicais da época. Alguns inocentes, divertidos, bonitos e outros com consequências muito prejudiciais para a vida de quem embarca naquela livre escolha. Principalmente se o caráter, a vontade daquele jovem foi negligenciado e o mesmo não tem maturidade para discernir que aquela moda vinda com aquele estilo não é só moda, mas um caminho que talvez não tenha volta. É necessário que a família acompanhe o amadurecimento da criança e ajude-o a amadurecer. Isso passa também pela educação da vontade e esse acompanhamento também está na responsabilidade da família em prover contato com situações que apresentem o belo, o difícil, a conquista. Falo um pouco sobre isso nos textos: “Como educar a vontade: parte 1” e continuações.

Fomos perdendo, por rebeldia, a presença de um estilo musical denso, de profunda qualidade e fomos dando todo o lugar a músicas que passaram a imbecilizar os jovens, coisificar as pessoas (principalmente a mulher), sem falar na perda da qualidade musical.

Não apenas não expomos nossas crianças a repertórios de qualidade mais profunda como não é difícil ter contato com famílias que acham normal, bonito, saudável levar, por exemplo, meninas de 5 anos em “shows” de cantoras que o que mais sabem fazer é sexualizar ao máximo seus trejeitos, colocar a mulher como objeto dentro de músicas com qualidade musical muito ruim. 5 anos é idade para brincar, educar os ouvidos  com sons variados e não para colocar um shortinho e rebolar até o chão.  Estão percebendo como a música é muito mais do que aquilo que entra pelos ouvidos? É estética que entra pelos poros, é modelo de ser que vai impregnando na alma.

Não precisa ser música de apenas um tipo, repito, mas é importante que fique claro: música de qualidade enriquece o imaginário, trabalha a criatividade, melhora a concentração e ativa mais partes do cérebro. Aí eu te pergunto: Você alimenta a infância do seu filho com que tipo de trilha sonora?

 

Cibele Scandelari

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s