Família

A importância dos avós para o desenvolvimento dos filhos

Quando me propus a escrever sobre a importância de cada membro da família para um desenvolvimento saudável das crianças, nunca me passou pela cabeça não falar dos avós. Entretanto, na hora de começar a escrever, me deparei com a tela do computador em branco e muitas imagens doces da infância me vinham na cabeça, mas eu continuava com dificuldade em começar a escrever. Não porque não ache a presença dos avós importante. Acho que minha dificuldade estava em tentar escolher a melhor lembrança, a mais marcante, a que conseguisse passar o que de melhor aprendi convivendo com meus queridos e atrapalhados avós.

Eu já estava na faculdade e durante as férias de julho adorava passar vários dias na praia com meus avós maternos. Sim, eu tinha amigos. Mas sentia necessidade de estar com eles. A aventura já começava na hora de combinar. A casa de praia era muito simples, uma pequena casinha de madeira, que meu avô levara a vida reformando e não tinha telefone fixo. Meu avô comprara um celular, porém nem o presidente da República conseguiria fazê-lo deixar o celular ligado. Ele havia combinado conosco que deixaria o telefone ligado apenas uma ou duas horas por dia e nada mais. Eu tentei argumentar, mas nada feito. Então eu tinha que ligar no posto de gasolina que ficava ao lado e alguém tinha que chamar minha avó. Tudo para confirmar que eu iria. Chegando lá, me deliciava com toda a atenção que recebia. Eu, marmanjona, tinha meus queridos avós só pra mim. E eles adoravam… faziam questão de arrumar minha cama juntos, assim que eu chegava. Nunca vou esquecer a cena. Discutiam pra tudo, era muito engraçado.

Passava muito tempo observando meu avô construindo parte da casa da praia. Tudo com muito cuidado, milimetricamente calculado. Ele era um mestre de obras de mão cheia. Tá certo que exagerava no cálculo milimétrico, mas fui aprendendo alí, o valor de um trabalho bem feito, da honestidade. Sobre honestidade lembro de um fato da infância, que nunca vou esquecer. Eu queria andar de bicicleta em volta da quadra e fui pedir para meu avô. Ele, claro, não deixou. Bem a cara do meu avô. E eu, com a minha cara de pau e não me dando por vencida, entrei sorrateiramente na casa, peguei a chave do portão e fui dar minha volta, toda feliz. Chegando perto da frente da casa, gelei. Lá estava meu avô com seu chapéu de palha. Esperou eu chegar, muito sério. Olhou pra mim no fundo dos olhos e disse: “agora não posso mais confiar em você.” Não fez mais nada. Apenas fechou o portão e entrou. Aquilo doeu fundo em mim.

Minha avó acompanhava praticamente tudo o que meu avô fazia. Na praia, por exemplo ajudou até a erguer algumas paredes. Estava sempre ao lado do meu avô e mesmo tendo sofrido muito com os ciúmes que ele tinha, cuidou daquele teimoso com todas as suas forças. Estava sempre por perto com um copo de suco de laranja, fazendo o feijão que ele tanto gostava. Aprendi muita coisa com minha vó, mas o que me vem primeiro à cabeça, é a importância de dedicar-se à família. Ninguém mais pode fazer isso por nós. Essa doação, essa entrega com alegria será para sempre um farol para mim.

Convivi mais com meus avós maternos, porém tenho tido longas conversas com minha avó paterna. E percebi que mesmo tendo sofrido muito, ela manteve a alegria em viver, sempre tenta ver o lado bom das coisas, mesmo em momentos difíceis. Ficou viúva bem cedo, de maneira trágica, com três crianças para criar e, devido a muitas coisas, sem casa e sem um tostão. Lutou, trabalhou, passou por essas coisas e foi além. O que eu adorava ver nela, mesmo quando criança era seu gosto por sair para dançar, por estar bem arrumada. Uma alegria inspiradora. Não imaginava que tinha sofrido tanto. Outra coisa que aprendi com minha avó paterna foi dar valor a mim mesma. Ela nunca, nunquinha deixou que eu reclamasse de mim mesma. Sempre me mostrou como era importante eu gostar de mim mesma e procurar em mim as qualidades.

O convívio com os avós traz para a vida mais riqueza, mais oportunidades para se conhecer a própria história, para desenvolver a paciência. Os avós são um elo com nosso passado. Um elo com maneiras diferentes de ver a vida, de compreender o presente e de esperar o futuro. Suas vivências podem nos ajudar a entender as nossas dificuldades. Porém, é necessário que aprendamos a QUERER estar e aprender com eles. A ouvir bem mais de uma vez a mesma história. Gosto de pensar que talvez Deus tenha feito as vovós e os vovôs repetirem tanto suas histórias, pelo fato de que nós, jovens, temos dificuldades em conseguir compreender sua importância nas primeiras vezes.

Essa dificuldade em perceber como os avós são importantes mesmo com as peculiaridades da idade, podem trazer alguns conflitos dentro da família. Mas encaremos tudo isso com bom humor. O bom humor tem que ser uma das bases de uma família! Ainda mais uma família que se propôs a passar uma pouco mais de tempo junto, como é o caso das famílias educadoras.

Sobre esses conflituosos relacionamentos, transcrevo aqui uma parte de um texto de Isabel Marrachinho Toni, do Portal da Família:

                                                    ” (O relacionamento se dá) Primeiramente no convívio diário, o aprender vivenciando, na  compreensão do momento de vida de cada membro. Compreensão é mais que entendimento é colocar-se no lugar do outro e assim entende-lo como único. Respeito por todos e por cada um e acima de tudo AMOR,enquanto ponte, caminho para todos os caminhos, sentido de vida, sentimento que transcende o tempo e o espaço.

                                               Um ambiente pleno de carinho e atenção em torno do idoso,juntamente com serenidade afetiva, favorecem o acomodamento emocional proveniente do envelhecimento.

Na realidade, a vida dos idosos em família ajuda a esclarecer a escala de valores humanos; faz ver a continuidade das gerações e de maneira maravilhosa a interdependência. Os idosos têm além disso, o carisma de romper as barreiras entre gerações antes que se consolidem.

                                                          Deste modo, não apenas a cultura dos avós se insere na vida e nas famílias das novas gerações, mas também nessa “casa dos avós” se irá gerar novas contribuições pessoais valiosas que aumentam ainda mais essa cultura que eles transmitem. A prática dessa cultura original melhora o relacionamento e a educação entre os membros da família, além de ser uma proteção contra os apelos sociais de consumismo e individualismo.

                                                         “Pensar a família nos leva a considerar o espaço onde se dá a vida cotidiana. É nesse espaço que se processa a nossa existência; nele os mais velhos transmitem a história oral das famílias, os legados de cada geração, e é ai que se dá a articulação dos fatos históricos e a vida pessoal ( Medeiros, 2004, p190)”.

  Pode-se refletir, a partir disso, que, apesar das significativas mudanças experienciadas e vivenciadas pela família, ela continua no inconsciente das pessoas como o lugar da segurança e da felicidade. Precisamos, então, entender que a família é a junção de indivíduos cada qual a seu modo, e que este local , depositário de felicidade, precisa ser construído individual e coletivamente por seus membros, independente da idade cronológica. Desta forma o idoso tem um papel primordial na vivência familiar, devendo ser o marco de um passado, o porto seguro do presente e a ponte para um futuro melhor e com mais qualidade.

Agradeço por ter tido a chance de ter convivido com meus avós. E sou muito feliz por ver minhas filhas também terem essa oportunidade. Os abraços mais apertados, os beijos mais melados e as tardes mais mimadas nos ajudam a sermos mais humanos. A vida homeschooler é, ainda mais, viva e autêntica com a presença dessas pessoas tão importantes.

Espero que todos nós saibamos passar a nossos filhos o amor e carinhos que os avós merecem. Pois, todos, só tem a ganhar.

Cibele Scandelari

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