Família, Maternidade

Manejando conflitos infantis

Estive em sala de aula por alguns anos de minha vida. Nesse período, por inúmeras vezes, me vi em situações nas quais minha presença estava sendo necessária não para instigar a criatividade, sanar uma dúvida, mas sim para mediar um conflito. Muitas vezes, a mediação teve que ser física, dada a realidade de temperamentos exaltados e a real possibilidade de que alguém se machucasse. Porém, muitas vezes, minha intervenção foi apenas de observação. Deve estar a pensar “então você não realizou intervenção alguma”. Muito pelo contrário. O simples fato de observar fez com que eu tivesse a chance de conhecer aqueles alunos para que no futuro eu tivesse mais propriedade em minhas conversas e dei a eles, a chance de ouro para que pudessem aprender a administrar seus próprios conflitos.

Hoje sou mãe homeschooler. Faço questão de promover e buscar ambientes nos quais minhas filhas possam aprender a gerenciar seus sentimentos, seus temperamentos, situações “complicadas”, a buscar  soluções para discussões em conjunto.  A diferença de minha posição anterior para agora é que antes, como profissional, eu tinha um dever para com os filhos dos outros (coisa que eu levava muito à sério) e agora estou prezando pelo crescimento integral de minhas filhas e, por isso, tenho a chance de proporcionar ambientes seguros para seu desenvolvimento. Tenho a chance de oferecer um ambiente levemente controlado que, com o passar do tempo e com o amadurecimento delas irá ficar cada vez mais complexo.

Não. O mundo não é o grande quintal da casa da avó. Mas é justamente por isso  que nenhum pai solta seus filhos pequenos diretamente no mundo. Ao invés disso deve ir proporcionando momentos para que a criança conheça pequenas dificuldades e, através delas e do bom acompanhamento da família, possa se preparar para enfrentar a realidade, na maioria das vezes dura e implacável. Nesse acompanhamento, os pais podem ir conhecendo a personalidade, as inclinações, os defeitos, as qualidades, o temperamento dos filhos e se vêem diante da possibilidade de forjar o caráter de cada um.

Lembro que, em sala de aula, parecia tentador chegar perto dos protagonistas das discussões e simplesmente finalizá-las. Seria mais fácil. Porém, apesar de em algumas situações essa ser a atitude cabível, nem sempre era assim. Como mãe também me vejo em realidades  assim. E agora, um amor muito mais visceral envolve as situações: o amor de mãe. O ímpeto inicial é afastar qualquer perigo, injustiça de perto da “cria”. Mas, como homeschooler, se eu faço isso, não estou impedindo algazarra em uma sala de aula, na verdade estou impedindo que minhas filhas amadureçam, sofram uma leve injustiça, se magoem um pouco para poder suportar a vida com mais brio. A realidade é que eu não estarei ali para todo o sempre como escudo ou filtro de um interlocutor mais colérico.  Como mãe, vou aprendendo, nessa prática domiciliar, que minha função é, até certo ponto de observadora, coletora de fatos e posteriormente de instigadora de questionamentos a respeito dos fatos e dos sentimentos e ações advindas dos mesmos. “O que aconteceu? Por que aconteceu assim? Como você se sentiu? Será que foi exatamente assim? Por que você acha isso injusto? Como você pode agir numa próxima situação? “.

 Já percebi que muitas situações, do ponto de vista puramente prático, realmente eram injustas para com alguma filha. Eram situações simples, pequenas, mas para aquela menina representavam o mundo. Minha intervenção no ato, poderia impedir um crescimento dela, ou uma conversa profunda mais tarde sobre como ela poderia, diante de uma situação que a magoe analisar o que está acontecendo, ser forte, saber defender-se, responder de maneira digna e caridosa, sem se melindrar e sem pisar naquele que comete a injustiça.

Ser mãe educadora torna esta situação mais gritante, mas ela não acontece só com quem não tem os filhos na escola. É necessário que pais e mães se segurem na hora de resolver todo e qualquer conflito no qual seu filho(a) está inserido, ali na hora em que o mesmo acontece.  Resolver pelo filho não ajuda. Isso não o fortalece, não o prepara para a vida.  

Ser homeschooler proporcionou, para o meu profundo deleite, a oportunidade de ser testemunha ocular das vivências da infância das minhas filhas. Com isso vou ganhando repertório para poder orientá-las adequadamente sem precisar adivinhar as situações.

Seguem algumas sugestões…dicas de quem domou a leoa materna. (Lembro apenas que algumas situações exigem sim a intervenção, como é o caso de agressões, fortes intimidações psicológicas entre outras):

1- Ao perceber o conflito, permita que seu filho tome uma decisão.

2- Permita que seu filho sofra as consequências de suas decisões .

3- Mantenha um canal de diálogo aberto onde a criança se sinta segura para poder falar sobre suas vivências, seus conflitos e suas decisões.

4- Encare situações desagradáveis e/ou injustas como oportunidade para forjar o caráter.

5- Dependendo da idade da criança estabeleça um diálogo, longe da situação vivida, fazendo com que ele/ela se coloque no lugar do outro, avalie as possibilidades.

6- Caso seu filho esteja com a razão, aproveite a oportunidade para trabalhar as maneira justas de mostrar para o interlocutor a real situação e maneiras de chegarem a um acordo. Além de trabalhar o caráter, de quebra você ajuda no desenvolvimento de um discurso mais estruturado e seguro.

7- Estabeleça um canal honesto de amizade com os pais dos amigos. Seja ponderado: os filhos nem sempre são as vítimas e nem sempre são os vilões.

 

 

Cibele Scandelari

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