Família, Maternidade

Síndrome de Gabriela

“Eu nasci assim, eu cresci assim, vou ser sempre assim… Gabrieela…”

Adoro essa música. Mas sempre que penso ou encontro pessoas que se desviam de seus defeitos dizendo fatidicamente “sou assim mesmo, não vou mudar” , lembro dela. Já faz um tempo que li que essa maneira de encarar a vida pode ser apelidada de “Síndrome de Gabriela”.

Ah! Por favor! Nada, nada, nada contra o nome! Por sinal, acho lindíssimo. Quisera eu ter mais uma menina para dar-lhe tal graça. Mas continuemos…

Quem sofre da “Síndrome” quase sempre reconhece que sua maneira de lidar com determinada situação não é a mais adequada. Para tais pessoas a saída mais fácil é assumir, sem assumir verdadeiramente, que sua escolha, maneira de ser, atitude, seja lá o que for, pode não ser a mais adequada, mas que “não tem jeito”, pois ela é “assim mesmo e não vai mudar”.  Orgulho ou preguiça? Não sei. Talvez uma mescla desses dois vícios. Talvez um se sobreponha ao outro. O fato é que, tanto um quanto outro, são um freio para a vida de qualquer um. Um freio que impede  a pessoa de ser o melhor que ela poderia ser.

Vamos nos deter por um momento: a pessoa passa por uma situação e faz uma escolha que claramente poderia ter sido melhor analisada. Perante a clareza de tal fato e das demais pessoas que a rodeiam ela se recusa a voltar com alguma decisão, repensar melhor sua atitude, escolher outra solução. Talvez porque isso a faça se sentir menos que os outros, talvez por vergonha ou ainda porque todo esse caminho pode custar-lhe tempo e ela simplesmente não quer despender o esforço necessário para mudar. Então recusa-se a “ser melhor” e escolhe, voluntariamente, a mediocridade.

Mas o que isso tem a ver com pais e mães? Ah! Tem tudo a ver! Tanto do ponto de vista pessoal quanto da visão de primeiros educadores que devem ser, por direito e dever, de seus filhos.

Como seres humanos, estamos fadados a errar. Faz parte da nossa vida, da nossa trajetória de aprendizado o erro, o equívoco. O problema, no entanto, não está tanto no fato do erro em si, mas sim na idéia de que não é necessário querer melhorar. Quando nossos filhos vêm ao mundo, passamos a ter o dever também para com eles de lutar para conhecermo-nos cada vez mais. Descobrir nossas habilidades e deficiências, virtudes e vícios para, assim, poder lutar e melhorar.

Vejam. Já faz bastante tempo que descobri que a ordem faz uma grande falta em minha vida. É uma luta constante para mim. A falta dessa virtude traz muitas dificuldades para meu dia-a-dia. Eu poderia dizer que nasci assim, que não tem jeito…vou morrer assim. Provavelmente nunca serei exemplo de organização. Porém existe a possibilidade de melhora. Todo dia posso ser um pouquinho mais ordeira. Essa será uma luta de uma vida, sem dúvida. Mas além dessa luta fazer jus à importância que dou à minha vida, ela representa um exemplo para minhas filhas e meu marido. Ao me esforçar por ser melhor, talvez não atinja tudo aquilo que gostaria, mas com certeza darei o exemplo de esforço e se continuar e continuar, darei o de ser uma pessoa perseverante.

Quando nasci para a maternidade, iniciou na minha vida uma dose extra do dever em querer melhorar e não ficar resignada em ser aquilo que os ventos me levaram a ser. Tenho que ter muito clara a verdade que, de uma maneira ou outra, sou exemplo. Se o vento quer me levar para um porto de perigosa acomodação, devo içar as velas e, embora seja mais penoso, devo fazer com que meu barco vá a barlavento, contra os ventos, contra as correntes. Esses ventos podem ser fruto das falhas da minha própria personalidade ou então das tendências da vida na sociedade atual.

Mas a “Síndrome” pode ser encontrada também na maneira como os pais vêem e defendem seus filhos. “Ah. Ele é assim mesmo. Tem uma personalidade forte!”. Ok. Pode até ter uma “personalidade forte” ou qualquer outra característica. Entretanto, é de responsabilidade dos pais conhecer as características dos filhos e ajudá-los a serem cada vez melhores. Suas “personalidades” não podem ser a desculpa para tudo o que fizerem de errado. Os pais devem ter muito claro que seus filhos podem ter nascido com determinadas características, que são a base de tudo aquilo que mais tarde fará parte do seu ser. Porém, devem ter muita atenção ao caráter que os ajudarão a forjar.

Percebam que a palavra aqui é FORJAR. Não apenas formar. Forjar significa que, muitas vezes, aquela personalidade deverá sofrer alguns golpes doloridos para poder ter um caráter nobre. E isso poderá custar, obviamente. Mas, neste caso, também é possível escolher o caminho fácil e achar que aquela criança é “assim mesmo”.  Que os ventos soprem e levem o barco para qualquer porto. Será que isso é amar de verdade? Escolher a opção menos penosa e não aquela que realmente é o melhor para quem se ama?

Aviso aos navegantes! Ser um ser humano, uma pessoa, não um simulacro de gente, mas uma pessoa de verdade, não é fácil. É um trabalho de uma vida inteira, sem férias. Claro que é um trabalho recompensador. Mas não é fácil. Todos temos coisas a melhorar. Mas é importante deixar claro que a “Síndrome de Gabriela” é uma saída tentadora que quando muito usada passa a ser parte real do modo de viver de qualquer pessoa. Simplesmente desistimos de nós mesmos, para ser mais exata.

 

Cibele Scandelari

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