Família, Maternidade

Quando meu amor não faz bem a quem amo

Amar é muito bom. Amar traz cor e brilho à vida. Ouso ir um pouco além e afirmo que fomos feitos para amar, porque amar enche nosso coração de felicidade e ser feliz deve ser a busca constante das ações dos nossos dias. Quando a paternidade ou a maternidade bate à nossa porta esse amor toma outras dimensões.

Quando a família cresce e deixa de restringir-se ao amor entre os esposos, a capacidade de amar de ambos também cresce. É natural que seja assim e,se assim não for, algo não corre bem.

Quando aquele serzinho nasce e contamos os dedinhos dos pés e das mãos, vasculhamos cada centímetro de seu corpinho e paramos para pensar que aquela figurinha depende inteiramente de nós, corremos o risco de ter um curto. Um misto de medo, ansiedade e uma vontade muito grande de fazer tudo certo nos bate de frente. Passamos a viver uma realidade que, talvez, não nos seja clara nem consciente, mas que existe: nosso amor ajudará a moldar uma pessoa.

Quando iniciamos um namoro, por exemplo, o amor que dá base a este relacionamento necessita ser saudável. De acordo? Do contrário, podemos adoecer, sofrer sem reais motivos e fazer a outra pessoa sofrer. Quando amo, me alegra ver a outra pessoa bem, feliz. O sorriso da pessoa amada imprime em meu rosto, mesmo que eu não me de conta, um semblante que transparece um pouco da felicidade encontrada em minha alma.

Quando minha razão me mostra que algo não fará bem a quem amo, a lógica faz com que eu tente afastar do meu “bem querer” aquilo que lhe fará mal. Ou alguém, em sã consciência, tento a possibilidade de afastar algo ruim do seu docinho de côco, deixa a coisa acontecer? Se sim, sinto muito… você é, no mínimo, estranho.

Pois bem. Voltemos aos filhos. Já namoramos, já decidimos estarmos juntos para o que der e vier. Casamos, construímos um lar. O pitoco ou pitoca veio e bagunçou o coreto. Percebemos que por causa daquele pacote, teríamos que tomar grandes, importantes decisões. Em uma dessas grandes decisões, tivemos a certeza de que nossa responsabilidade na educação dos filhos era grande demais e nos sentimos impelidos a abraçar essa educação de maneira integral. Descobrimos que somos dotados de um coração que, se deixarmos e exercitarmos, tem a capacidade de se alargar. Crescer, crescer, crescer.

Mas como administrar tanto amor? Como vislumbrar, no meio das tarefas, dos planejamentos, das birras, das aulas e projetos, o limite para deixar que a frustração deixe sua marca e permita que meu filho cresça? É possível que meu amor não faça bem a quem amo?

Já li, não sei onde, que “seu amor nunca será demais”, “faça o que seu coração mandar” e coisas do tipo. Bonito, mas e quando eu amo tanto, mas tanto que privo meu filho de toda e qualquer frustração? E quando eu quero estar ao seu lado em todos os momentos possíveis e acabo impedindo-o de passar por situações nas quais ele deverá tomar alguma decisão? Ou quando demonstro meu amor fazendo tudo por ele e assim prolongando a estadia do bebê em casa? Como administro minha decisão de tomar as rédeas da educação global, integral  com a necessidade de fazer com que essa realidade, em muitos momentos, me faça apenas observar, diminuir minha atuação, para que meu filho(a) possa provar o resultado de suas próprias decisões e que eu de antemão sabia qual seria o resultado? Será que sou meio polvo e meus tentáculos não permitem que minhas crias tenham frustrações, já que, para mim, é fácil evitá-las e me poupa contrariedades?

Vejamos. Amar é bom. MMM… não! Amar é ótimo! Dito isso foquemos nossa atenção nos filhos a quem amamos. Se fôssemos dotados com a capacidade de escolher as melhores coisas para nossas delícias em seus futuros? O que será que escolheríamos? Vou descrever aqui, algumas das coisas que eu escolheria para minhas meninas. Acho que a maioria concordaria comigo. Lá vai: se eu pudesse daria a elas personalidades fortes. Um caráter firme de quem sabe distinguir o certo do errado e uma força de vontade tal que lutasse pelo certo. Daria a elas o respeito por si mesmas e a coragem de exigir o respeito dos demais. Presentearia, cada uma com um coração grande e generoso. Entregaria, em um pacote com muitos laços, uma capacidade de reconhecer seus erros e lutar por vencê-los sem a noção ridícula de que vale aquele que nasceu com o dom e que quem se esforça é um pobre coitado.

Poderia continuar a discorrer sobre todas as coisas que eu gostaria de dar a minhas filhas em seu futuro. Mas o foco aqui está no seguinte: meu amor permite que um dia elas venham a conseguir ser tudo isso? Sou consciente de que meu amor só será autêntico na medida em que estiver focado na pessoa amada e não na minha ânsia de sentir o que quero, aquilo que me satisfaz?

Não é fácil ver os filhos crescer. Ir soltando as rédeas, deixar que cometam pequenos deslizes, que tenham pequenas dificuldades e que cresçam com as mesmas. Meu amor não faz bem a quem amo quando eu esqueço dessa pessoa e passo apenas e egoisticamente a querer sentir algo que ME realiza. Independente do crescimento e posterior felicidade daquele que de mim depende.

O que estamos fazendo hoje, agora, para permitir que nossos filhos venham a ser tudo aquilo que gostaríamos que fossem? Estamos dando oportunidades para que cresçam em autonomia, ou isso fará com que percamos nossos bebezinhos mais rápido? Permitimos pequenas frustrações, forjando, dessa maneira caráteres firmes, ou os colocamos dentro de uma bolha onde nada de ruim acontece, pois dói muito EM NÓS, vê-los derramar algumas lágrimas?

Lembremos que uma das definições que podemos dar ao amor é “querer o bem do outro, esquecendo de si mesmo”. Paremos um pouco para analisar como anda nosso amor. Sejamos sinceros e corajosos o suficiente para amar de verdade e ir além de um sentimentalismo egoísta passando para um amar maduro, real e generoso. Próprio dos grandes corações.

Espero também eu conseguir ter um coração assim.

Um grande abraço.

Cibele Scandelari

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