Família, Maternidade

Construção da auto estima (parte 1)

Estava eu, cuidado de uma de minhas filhas no segundo andar de casa quando escuto uma delas resmungar com voz triste: “Eu não sou teimosa…sou boazinha”. Pensei comigo naquele momento: “Sim! Você é boazinha! Você é um doce de criança! É carinhosa, alegre, criativa, inteligente. Mas tem algumas coisinhas que eu gostaria que melhorasse”. Continuei a pensar e me dei conta que, talvez, estejamos sobrepondo as características ardidas sobre as doces. E me passou pela cabeça que isso pode ser perigoso. Perigoso na medida em que ela escute, das pessoas que mais ama, apenas que deve melhorar. É importante que tenha muita certeza que essas pessoas reconhecem aquilo que tem de bom.

Agora se nós, pais, deixamos de mostrar para a criança o tanto de doçura que faz parte do seu ser, amparados em nosso dever de ajudá-los a serem cada vez melhores, damos um tiro em nosso próprio pé. Sim. Pense comigo: você passa a vida escutando como a teimosia está te atrasando, como isso é chato para quem está junto de você, como você precisa deixar de ser teimoso(a), etc. Quando fizer uma análise de si mesmo, a única coisa que vai enxergar é isso mesmo: seu grande e total defeito. Dependendo de como seja sua personalidade é capaz de achar que não tem mais volta e assumir de uma vez isso que dizem a tanto tempo.

Na infância precisamos que nossa família reforce nossos pontos positivos, para que possamos nos reconhecer e assim construir o resto do nosso ser. Somos aquilo que nossos entes queridos nos dizem que somos. É isso que vale na primeira infância. É sobre essa realidade que construímos nossa auto estima, a maneira como nos vemos, como acreditamos que somos. E isso tem um efeito de grande peso em nosso atuar como adultos.

Isso não quer dizer, claro, que acho que só devo elogiar minha filha, minha linda espoletinha. Que não poderei nunca mostrar-lhe que pode melhorar em algo. Não! Devo mostrar-lhe tais pontos. A questão é como fazer isso. Nesse processo devo lembrar que ela é única. Cada pessoa, desde a sua concepção, ocupa lugar ímpar na história. Seu ser é irrepetível. Cada criança que vem ao mundo possui um jeito de ser, uma combinação de tendências genéticas, temperamento inato e, com o passar do tempo, aspectos vindos do estilo de educação.

Todas as pessoas possuem aspectos positivos e negativos. Não é diferente com os filhos. É necessário que no dia a dia, no auge dos tropeços domésticos fiquem bem dosadas as demonstrações de que as qualidades são percebidas, são bem vindas e necessárias para toda a família. Não é uma questão de endeusar  o que o filho(a) tem de bom e sim reconhecer, fazer com que ele perceba isso e, munido de uma boa auto-estima possa partir para lutar contra alguma tendência que pode não lhe fazer bem.

Minha doce fofinha tem que ter certeza que ela é boazinha sim. Que ela tem qualidades deliciosas de se conviver. Não posso, como mãe, me acostumar aos seus abraços fortes, aos seus “eu te amo, mamãe!” vindos ‘do além’ , às suas cantorias intermináveis fruto de uma alegria genuína, achando que tudo isso é tão normal que durará para sempre e partir para atacar seus defeitos. Preciso educá-la de maneira positiva. Fazendo com que ela perceba como determinada característica é linda e como ela tem condições de fazer com que essa cresça. Até mesmo porque aquela outra crescendo de maneira desenfreada, não combina com sua doçura.

Não quero que ela se revista de uma faceta de seu ser e que isto venha a se tornar aquilo que a define por si só. Quero que aprenda a olhar para si e enxergar que suas características podem ser dominadas por ela e não o contrário.

Quando falo sobre isso sempre lembro de uma animação linda da Pixar (ótima dica de desenho para se assistir em família, papais, filhos, tios, avós e animais de estimação). Estou me referindo ao filme “Divertidamente”. Bonito, divertido, profundo, emocionante. Sem querer revelar nada para aqueles que ainda não assistiram, eu incluiria, no meio dos personagens, que são as emoções, a razão, pois como já disse, nossa razão, o nosso “eu” deve gerir nossa vida. Isso porque é a razão que observa a realidade, analisa as condições, mede suas emoções e então age. Quando não ensinamos nossos filhos a agir com a boa razão, suas decisões nunca realmente serão deles: entrarão em brigas sem reais motivos levados pela raiva do momento, decidirão começar ou terminar relacionamentos, fato que pode causar-lhes grandes sofrimentos, pois seu humor assim o manda. Se queremos que nossos filhos sejam donos de si, temos que ensinar-lhes, primeiro a se conhecer. A se olharem, se gostarem, terem cuidado e carinho para consigo mesmos. E, com cuidado, muito amor mostrar-lhes os pontos de melhoras. Isso exige esforço por parte dos pais. É bom ter em mente que a tendência é, para a maioria, concentrar-se nos defeitos.

Fica, então, a reflexão para esta primeira parte: o que percebo mais em meus filhos? O que comunico mais a eles? A segunda parte desta reflexão sobre a construção da auto estima você encontra AQUI.

Boa leitura!

 

Cibele Scandelari

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